O Cadáver

Collective Invention (1934) -  Rene Magritte



Definitivamente, ela estava morta. Seu corpo, gelado e inerte, tinha uma aparência sombria e, ao mesmo tempo, piedosa. Suas pernas, antes grossas, agora, estavam finas e esticadas.

Toin, olhando o cadáver de Matilde caído no chão do banheiro, sentia remorsos por tê-la matado. “Um ato cruel e banal, não havia necessidade de tal selvageria. E agora? Eu voltarei a ser um velho sozinho...”, pensava e chorava por tomar consciência de ter matado sua única companheira e amiga de todas as horas.

Toin era um velho solitário e carrancudo, morava numa pequena cidade do interior do Ceará. Por causa de seu gênio difícil, nunca tivera amigos. Toin, há quarenta anos, tinha chegado ao Ceará, sem família, sem intenção de formar uma, sem grandes posses, e de lá para cá permanecera sozinho.

Até que, há cinco meses, Matilde apareceu em sua vida, ou melhor, em sua casa. No princípio, isso incomodou bastante o homem, que já estava acostumado com a solidão, porém, Toin logo percebeu e se encantou com o caráter discreto e silencioso de sua primeira companhia diária, aceitando, sem muitas reclamações, sua permanência em casa.

E agora, só lhe restara um cadáver, mais gélido que o habitual, de sua companheira, caída no chão do banheiro. “Nunca pensei que sua língua fosse tão grande”, sussurrava o homem para si mesmo, ao abrir a boca de sua ''amiga'', tentando, inutilmente, colocar a língua alongada de Matilde para dentro...

Toin, ao ver as pernas imóveis e esticadas de Matilde, que nunca mais se moveriam em sua direção, deu um grito e começou a chorar. Não chorava pela morte propriamente dita, mas pela consciência da vida rotineira e solitária que voltaria a ter. “Ela era a única que me fazia companhia, ah, nunca mais Matilde se deitará comigo na rede... Nunca mais escutarei seu canto...”, pensava e chorava.

“Por que você tinha que me assustar, sua infeliz?... Você sabia que eu não gosto que me perturbem quando estou no banheiro...?”, agora Toin reclamava com o cadáver de Matilde, como se aquele monólogo tirasse um pouco seu sentimento de solidão e angústia pela fatalidade.

Depois de mirar reflexivamente para o cadáver, Toin decidiu sair do banheiro e deixá-la lá. “Só terei cuidado com as formigas... elas não vão macular seu corpo, querida...”, falou acariciando as pernas esticadas e gélidas de Matilde, como uma demonstração de afeição.

Dos olhos de Toin, antes de deixar o banheiro, saiu uma lágrima, sorrateira, ao olhar o cadáver da rã morta no chão.




Lizandra Souza

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