Da libertação de Eva ou a profana comédia

 Femme libérée , Zuleta, Colombia

Cansado da merda que essa civilização bestial dos últimos tempos tem feito com seu planeta, desde os primórdios até hoje em dia, do barro ao homo sapiens atual, o Todo Poderoso decidiu acabar de novo com toda forma de vida na Terra, não se importando nem (preferencialmente) com seus supostos aborrecíveis representantes, adoradores e seguidores, que viraram tudo poeira junto com os ímpios.

Porém, três dias depois do fim dos tempos, Ele se sentia muito solitário e carente. Desejando o monólogo de alguém, para conversar. Foi então que Odin decidiu acabar com sua carência, baixo-estima e ego ferido, pegando um pote de barro e começando a modelar os novos e recriados primeiros cidadãos da Terra. “Esses não irão sair bugados como a espécie homo sapiens... sem falar nas mentiras da mitologia grega, romana e nórdica, povo burro... dessa vez os primeiros habitantes do novo paraíso não serão...”, monologava Odin, contente, ao modular “o primeiro novo ser recriado” para habitar a renascida Terra.

Quando Odin estava terminando de modular o primeiro corpo do novo cidadão da renascida Terra, ocorreu-lhe um terrível impasse, que era a decisão sobre o sexo do novo ser humano. “Chega de machismo, essa merda de costela já me causou tremendas dores de cabeça, homens/cisgêneros opressores e broxantes, mulheres feministas enchendo-me a paciência com toda a razão... Sem falar nos rótulos... esteriótipos...”, ao pensar em sua primeira bestialidade, Odin decidiu criar Eva, a primeira nova mulher da Terra. “Depois que criar o primeiro novo homem da Terra, vou criar outro ser humano, tenho que pensar também no poliamor, vai que essa geração me desaponta... e farão groselhas e baboseiras com meus grandes feitos...”, falava Odin, admirando Eva.

Depois de Eva, a primeira nova mulher habitante da Terra, Odin foi criar, também feito do barro, o primeiro novo homem habitante da Terra. “Ele se chamará Rojão... não, não, Demão... não, é melhor Pião... já sei, será Adão, o homem da terra vermelha, ah, minha amada palestina...”. Odin, então, pegou os restos do barro e assim, através de suas mãos, surgiu o primeiro novo homem recriado para habitar a renascida Terra. Porém, algo o enfureceu...

“Droga, por nome de Borr, meu pai, Adão veio com aparência de homi-cis-hétero-branco eleitor do bolsovômito do futuro, não pode ser...”, gritava Odin, perplexo, ao examinar Adão. Odin chorava raios e trovões ao ver que nem mesmo ele, o Todo Poderoso, escapava aos "erros". Depois de se conformar com a fatalidade da performatividade de Adão, Odin Rei, se apresentou para seus servos.

“Ó filhos meus, geração nova da Terra antiga! Por que me quedais assim ajoelhados neste novo paraíso, recriado para a fortuna sua e de seu senhor, eu, Odin, filho de Borr e de Jotun Bestla, irmão de Vili e Vé, esposo de Frigg e pai de muitos dos deuses...”, Odin, com seu português erudito, tentava impressionar seus novos servos, porém, ao perceber que eles não entendiam muito bem seu português arcaico, a bela flor do Lácio, resolveu deixar de pedantismo e se fazer entender.

“Você é Eva, a primeira nova mulher habitante da Terra, deste paraíso, feito para você viver com seu marido, Adão, feito a partir de suas sobras... Vocês terão a obrigação de viver aqui e encher a Terra com seus descendentes. Dou-lhes o livre arbítrio, mas terão que seguir, apenas, um capricho meu, que é: não comam nenhuma maçã, o fruto do pecado... O resto, tudo pode, comam bananas, mangas, jacas, vivam pelados, transem quantas vezes quiserem por dia e das posições que quiserem, sem besteira de pudor... Só não comam minhas maçãs, pois elas detém um conhecimento que só eu posso ter, se a comerem serão abolidos do meu paraíso... Saibam que Fausto tanto almejava conhecer...”.

***

Os anos se passaram e algo estranho acontecia no paraíso: não havia nenhuma prole do primeiro novo casal habitado na Terra. Adão, apesar da aparência de hétero, era extremamente indiferente com Eva. E ela a ele também. Odin, entediado e desesperado (por perceber que a porra de uma genitália não determina nada), não tendo coisa melhor que fazer, decidiu mudar os rumos da história, fazendo uma espécie moderna de oráculo, em que Eva comeria (novamente!) o fruto proibido e levaria Adão a fazer o mesmo, pois quem sabe, assim, o desejo sexual do casal pelo ''gênero oposto'' nasceria e as coisas no paraíso se tornariam mais interessantes para ele.

“Filhos meus, bondoso e clemente como sou, concederei a cada um de vocês um desejo realizado, agora, pensem em um desejo muito forte e ele acontecerá, pois eu sou Odin, filho de Borr e de Jotun Bestla, irmão de Vili e Vé, esposo de Frigg e pai de muitos dos deuses.”, falava o Todo Poderoso.

-Adão, meu filho, qual é o seu maior desejo?
-Ó Odin, soberano de minha Terra! O que eu mais quero, vou falar em voz alta, é conhecer Cher. 
-Mas quem diabos é Cher, meu filho? Disse Odin!
-Ora, Cher, a Deusa do glitter, a cobra me mostrou um show dela no futuro... Portanto, tenho que viajar no tempo, ir ao futuro para conhecer Cher! 

Odin, perplexo com o desejo de Adão, teve que assentir, pois dera sua palavra, e o filho de Borr e de Jotun Bestla, irmão de Vili e Vé, esposo de Frigg e pai de muitos dos deuses, não era mentiroso. Assim, ficou determinado que, quando o dia der seu lugar a noite, Adão terá seu desejo realizado.

“Em nome de Borr, meu pai, tomara que essa Eva seja mais ajuizada e peça a maçã, o fruto proibido e almejado...”, pensava aos prantos, Odin, com receio do desejo de Eva.

-E você, filha de minhas mãos, o que mais anseias nesta vida, diga-me, que terás, pois eu sou Odin, filho de Borr e de Jotun Bestla, irmão de Vili e Vé, esposo de Frigg e pai de muitos dos deuses... Por acaso, você não desejaria aquela bela e deliciosa maçã rubra?

A proposta de Odin era tentadora, nem mesmo a serpente teve tanta persuasão quando falou com Eva dias atrás. Ela estava tentada a aceitar, porém, algo dentro de si falava mais alto, um desejo profundo lhe enchia o coração, como uma quimera. Havia nos olhos de Eva um brilho impertinente, algo que ela, e nem mesmo Odin, poderia entender. O desejo de Eva ultrapassava alguma coisa limitada, que assustara Odin, que viu seus planos acabados em poucos segundos.

Eva desejara a liberdade, uma liberdade natural, do direito de por natureza poder agir sem qualquer constrangimento externo. Eva desejou sua independência absoluta daquela história. Odin, filho de Borr e de Jotun Bestla, irmão de Vili e Vé, esposo de Frigg e pai de muitos dos deuses, consternado, vítima de seu ego machista e  de seu capricho, não teve escolha, e libertou Eva, que saiu correndo, livremente, abandonando Adão e Odin, o Todo Poderoso Deus Nórdico, no paraíso.


Fim


Ou não!!!


Quaisquer intertextualidades, mesclas de incoerências mitológicas relacionadas a figuras religiosas/bíblicas e à ciência nesse conto não são meras coincidências. Isso é apenas um conto chula que mistura tudo e não diz nada, fruto de um devaneio meu, se acalme irmão!!!



Lizandra Souza

2 Comentários:

Debora Deb 17 de abril de 2015 21:08  

Muito bom, seu texto me prendeu comletamente

Lizandra Souza 21 de abril de 2015 09:10  

Que bom, obrigada, Debora :)

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