Devaneio onírico de um alienado

O Sonho (Pierre Puvis de Chavannes, 1883)



“O incêndio que atingiu o escritório de advocacia Dr. Estácio Menezes e Cia. nesta manhã do dia 13, sexta-feira, no bairro Aldeota, em Fortaleza, não deixou feridos. O fogo foi percebido depois que uma fumaça preta começou a sair da porta da sala de um dos sócios.”


Augusto, aflito, relia, pela trigésima vez, na tela de seu computador, o trecho de uma notícia sobre um pequeno incêndio que ocorreu nesta manhã, em seu trabalho. “Era para eu ter morrido, ainda bem que fiquei em casa... ah, amanhã eu quero ver a cara do Paulo, da Marta, do Antônio e dos outros quando eu explicar que não fui ao trabalho hoje porque sonhei que iria morrer neste dia, ah, agora quero ver se eles ainda vão rir ou fazer avacalhações com minhas superstições...”, pensava, desvairado.
***

Augusto, desde criança, acredita no poder e nas revelações dos sonhos como premonições ou avisos celestiais, isso desde o dia em que ele sonhou que estava fazendo xixi e que ao acordar, notou, que realmente fazia xixi na cama. Uma vez, sonhou que tiraria zero numa prova de matemática, e que levaria uma surra de seu pai como castigo, ele acreditou tanto nisso, que conformado, não estudou para a dita prova e comprovou seu sonho, tirando um zero e levando uma coça. Quando seu tio Afonso perdeu uma perna - em um trágico acidente - Augusto sonhou que seu tio nunca mais voltaria a andar de bicicleta, e ele estava certo, seu tio Afonso nunca mais andou... Um dia, sonhou que estava chovendo, quando acordou, feliz, percebeu pelos pingos nas telhas da casa que realmente chovia.

Na adolescência foi a mesma situação. Tudo que Augusto sonhava, para ele, tinha alguma simbologia. Seus pais quiseram, inicialmente, levá-lo para um psicólogo, mas depois que Augusto sonhou que eles ganhariam um frango no bingo da igreja, e que, realmente, - depois de terem comprado vinte e três cartelas, no valor de noventa e dois reais - eles ganharam um frango com farofa e um refrigerante de uva no bingo, decidiram agradecer a divindade pelo dom de seu filho prodígio e esquecer o assunto do psicólogo. Assim, o tempo passou, Augusto foi desenvolvendo "seu dom" e cada vez mais confiando em seus sonhos como avisos.
***

Nesses dias, Augusto sonhou que estava doente porque excedia no açúcar de sua alimentação, no dia seguinte fez exames e descobriu que tinha diabetes. Outra noite sonhou que sua mulher estava lhe traindo, no dia seguinte pediu o divorcio, a mulher logo aceitou, desesperado, concluiu que a mulher amava outro. Foi então que, Augusto, teve o pior dos sonhos. Sonhou, na noite passada, que morreria no dia seguinte. O homem acordou de madrugada aos prantos. Não queria acreditar que o fim tinha chegado. Que uma vida inteira de sonhos e simbologias o levaria a conhecer o dia de sua morte, tão prematura.

Augusto não conseguiu mais dormir, tentou rezar, mas não adiantou. Só lhe vinha á cabeça sua imagem dentro de um caixão, vendo seu próprio velório e não conseguindo se mover, respirar, falar, gritar que não queria ser enterrado. Foi então que o homem decidiu não sair de casa naquele dia. E foi o que ele fez, passou o dia no quarto, perto do telefone e do computador, para saber as notícias do dia ou receber as reclamações de seus superiores por ter faltado o trabalho sem aviso prévio.

Quando Augusto, por volta do meio-dia, leu a notícia de um incêndio em seu trabalho, ocorrido pela manhã, logo se desesperou, pois viu que tinha razão, era a morte querendo pegá-lo. A tragédia não deixou feridos, logo o homem supôs que era natural, pois era apenas o “seu dia”.

O homem passou a manhã e a tarde relendo o trecho principal da notícia e fazendo relações com o sonho que teve na noite passada. Ele sentia-se mal, enjoado, com muita dor de cabeça. Resolveu tomar banho, mas teve medo de sair da cama. “Vai que eu escorrego... ah, não, hoje não vou me expor ao perigo...” pensou, e desistiu do banho. Ele estava com fome, mas ir até a cozinha para fazer comida “também era arriscado, demais...”.

Á noite chegou e com ela o alívio de Augusto. Agora ele poderia descansar seus pensamentos e pensar no dia de amanhã. Com o fim deste dia a premonição de seu sonho se findaria e ele poderia voltar com suas atividades cotidianas normais. “Ah, agora eu vou dormir, mesmo que essa fome atrapalhe meu sono, eu sei que terei uma boa noite, minha vida agora está salva... Amanhã ninguém vai acreditar quando eu contar o que sonhei e o que fiz para sobreviver...”, pensava em como contaria à seus amigos sua grande façanha.

Ele sentiu um aperto no peitou, fechou os olhos para dormir. Sentiu um frio calmo em sua espinha, um vento leve por seus ouvidos. Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu. “Deve ser o sono, finalmente, chegando...”, refletiu. Em seguida veio uma lembrança perturbadora, involuntária, em sua mente. Ele esqueceu-se de tomar os remédios e a insulina para o diabetes. “Ai, mas eu estou me sentindo bem, acho que não vai fazer mal eu não ter tomado hoje, afinal, escapei de situação pior...”, pensou.

De repente uma luz iluminou sua mente. E novamente sentiu um aperto no peito, dessa vez mais forte. Ele suspirou. Sentiu-se estranhamente calmo, sereno e com vontade de gritar bem alto. “Ah, é o sono, amanhã eu...”. Augusto dormiu... Para sempre!


Lizandra Souza

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