Devaneio interstelar de uma existência finda

Pintura: Sorrowing Old Man ('At Eternity's Gate') - Van Gogh



Sinto anseio
de meus antigos sonhos
agora alheios
neste tempo
neste nada
que se esvai
e que me aprisiona
numa armadilha ilusória
que me cega
que me leva
a ser
o não-ser
e a ver o ser
que eu não serei
nunca mais!
A tarde cai
estranha e prematura
cheia de tudo
cheia de dor.
Deixando comigo
a condolência
de uma existência
tarde e equivocada.
Eu sou as lembranças
do que fui
e o receio do que serei.
As manhãs já não me fazem
renascer.
As tardes já não se importam
com meu triste viver.
E as noites, fugazes, esperam
o meu desfalecer.
Eu sou o ser e o nada.
Eu serei a impotência
da ausência do meu verdadeiro ser.
Mas serei também
poeira cósmica
e minhas partículas
deixarão vestígios
no espaço galáctico
dos meus devaneios
mais secretos.
E então eu serei silêncio?
Invisível
de mim mesmo.
Longe
do que fui
do que sou
e do que (não mais) serei.
Ah, quisera eu
poder mudar
minha essência
e virar uma estrela!


Lizandra Souza

2 Comentários:

Kleiton Gonçalves 27 de abril de 2014 21:54  

Lembrei de Cecília Meireles, pelo ritmo, pela musicalidade. Belo poema.

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