O Alienado



Mendes já não aguentava mais o latido e a bagunça do cachorro no quintal de casa. Desde que se mudara para a casa de seu falecido tio Hermano Cururu Ramos e Remos, todos os dias Bill, o cachorro, não queria sair do quintal, vivia cavando o chão perto de uma mangueira e ainda não deixava os vizinhos dormirem com seus latidos insuportáveis pela madrugada.

Já estava na hora de Mendes tomar uma decisão, Bill sempre fora muito comportado, mas nas últimas semanas ele estava muito bizarro. Não comia direito o que lhe era dado, quatro vezes fugiu e mordeu três pivetes que corriam ao redor do lado de fora da casa, outras três pulou o muro da vizinha, um dia sem querer mordeu o traseiro do amante da mesma, roubou o pão do padeiro, o jornal do jornaleiro, o peixe do peixeiro, a bíblia do padre Edmilson, a carne do açougueiro, o cururu da macumbeira e até o doce da criança.

--- Assim não dá mais Bill, até o cururu da velha bruxa é demais, e se ela joga uma mandinga em mim, hein... Cachorro irresponsável, maluco... Gritava Mendes para o cachorro.
--- Auau, auuuu, uoouu, auauau... E é claro que o animal só ''falava'' isso e lambia o pé do dono.

*** 

Mendes atormentado deixou mais cedo o trabalho, recebera um telefonema do vizinho dizendo que Bill tinha roubado uma enxada do pedreiro, e que este iria lhe dar um tiro.

--- É hoje que eu mato essa peste do mal, falava o pedreiro, que por sinal era o amante da vizinha que ficara com profundas cicatrizes.
--- Não, senhor, pelo amor de Deus, Bill é minha família, falava Mendes.
--- Pois trate de me dar uma enxada nova, porque a minha ele levou e não trouxe mais.
--- Sim senhor, em menos de dois dias lhe trago a melhor cavadeira da cidade.

***

Dois dias depois do acontecido, Mendes tem uma surpresa, a antiga enxada do pedreiro estava escondida na parte de trás da cisterna de sua casa, no fundo do quintal. Ele então olhou para Bill e viu o cachorro tentando cavar um buraco com as patas debaixo da mangueira.

--- Então foi por isso que você furtou esta enxada, não... Mendes acreditava na inteligência dos animais.
--- Uau aua uauauauauu Uou, respondeu o cachorro, como sempre.
--- Ah danado, vou te ajudar a cavar.

Mendes passou a manhã de folga cavando o chão, e logo no início teve uma surpresa, ele achara um lindo anel, ficou tão feliz pensando que ali, bem nos fundos de sua casa, pudesse haver um tesouro que continuou cavando com o cachorro. Depois de duas horas Mendes quase morre do coração, é que ele havia desenterrado um cadáver, que pela decomposição ainda inicial dava para ver que era de uma mulher.

Ele quase desmaiou três vezes, o animal lambeu seu rosto e ele começou a chorar, berrar, gritar, só faltava dá coices e relinchos, e isso não por ter reconhecido que aquele anel era de sua tia Ambrosilda, mas porque o outro anel que acabara de achar ainda estava no dedo do cadáver que era de tia Ambrosilda.

Depois de um longo estado de torpor, Mendes ainda não sabia o que fazer. Já eram sete horas, a hora do jantar. Ele decidiu entrar com Bill para dentro de casa e comer algo, de barriga cheia as soluções viriam, pensou. Foi uma cena muito bizarra, Bill, Mendes e o cadáver de tia ambrosilda sentados à mesa. Mendes achava uma desfeita deixar sua ilustre tia no relento do quintal imundo onde o frio poderia ressuscitar-lhe. Porém aquele terrível odor que vinha de sua tia não o deixava comer em paz, ela fedia muito, muito e muito mau mesmo.

Mendes com todo cavalheirismo, deixou titia “Ambrô” na cozinha e levou o infeliz do cachorro já inconsciente para comerem trancados no quarto. Bastou Bill se afastar da catinga de titia que o bichinho acordou do entorpecimento físico e mental.

*** 

Dez horas deram e Mendes não sabia o que fazer com a defunta. Ele pensou em várias maneiras ardilosas de se livrar de titia, porém todas terminavam mal. Se ele tentasse cavar titia de novo seria uma blasfêmia contra o amor familiar e ele não queria um cadáver no quintal de casa. Se ele chamasse a polícia iriam prendê-lo e ele veria o sol nascer quadrado, ninguém acreditaria na história. E se ele deixasse tia Ambrosilda em casa, num quartinho dos fundos, ninguém nunca a descobriria, mas só em pensar nisso o cachorro desmaiou de medo. 

--- Calma! Acorda Bill, foi só uma ideia, também sofro com o fedor de titia.
--- Auau!?
--- Ora, vamos precisar dá uns trinta banhos em titia, mas é uma boa ideia.

Mendes já tinha chegado ao auge da demência, ele acreditou ter falado com o cachorro e que este tinha lhe dado a solução. Mendes com a ajuda do cachorro alienado conseguiu, não se sabe como, colocar tia Ambrosilda numa banheira. Mendes estava morrendo de vergonha em ter que terminar de despir os trajes acabados de titia, mas era a única solução.

O cadáver estava em horrível estado de decomposição, molhado e cheio de espumas então, era o demônio de feio, se é que ele é monstruoso assim.

--- Até que não está tão mal hein?
--- Hooll!

O animal homem e o animal cachorro deixaram o corpo da defunta três dias seguidos dentro da banheira com todos os perfumes, sais minerais e cosméticos da casa. Mendes já não sentia tanto o odor perturbador de sua tia. Ele decidiu nunca mais ir aquele banheiro e assim deixar titia tomando banho para sempre.

O cachorro não aceitou, ele se apegara profundamente a titia e não saía do banheiro. O estranho é que ele latia igualzinho quando estava no quintal, tentando tirar titia cavada do chão. Mendes não ligou, era a amizade. Três semanas se passaram e Mendes resolveu trocar os perfumes de titia, Bill escolheu seu preferido.

*** 

Dois meses mais tarde, Mendes enlouqueceu mais ainda. Ele resolvera colecionar defuntos. Então começou a cavar os fundos do quintal e achou três cadáveres. Um era de uma prima distante, e os outros dois ele não conhecia, só sabia que eram de homens.  Colocou todos os defuntos juntos com titia no banheiro que logo ele mandaria aumentar.

Após escavacar tudo que era chão no quintal ele resolveu cavar dentro de casa, porém, só achou um esqueleto velho de cachorro, o que Bill adorou, o cão já era demente. Ele então correu ao extremo. Iria roubar os defuntos da funerária onde trabalhava, afinal para que a família do morto gastaria dinheiro com caixão, podendo ter seu ente querido ''numa bela casa com muitos amigos''?.

Começou a desaparecer os defuntos da funerária, foi o maior escândalo que aquela cidade já teve, foi preciso à prefeitura junto com a funerária “Seu defunto Seguro em Primeiro Plano” pagarem uma indenização para as famílias donas dos cadáveres, para abafar o caso. A funerária acabou falindo e sendo fechada, todos os empregados perderam o emprego, inclusive nosso alienado.

Mendes estava frustrado, ele já tinha noventa e nove cadáveres, só faltava um para terminar sua primeira coleção. Bill também não ficava por trás do dono, parecia que o cachorro queria a todo custo ter mais um defunto em casa. Chegou ao ponto crucial em que Mendes e Bill queriam se ver pelas costas, um armando para cima do outro, esperando um único momento para dá o bote mortal no companheiro.

Mendes tinha sido vencido pelo sono e acabou dormindo. Bill, ardiloso como sempre, foi para cima do dono. Foi assim, homem e cachorro, rolando no chão, uma algazarra, um barulho horrendo, homem e animal medindo forças, tudo para completar uma coleção de defuntos, um mordendo o outro, Bill pregava os dentes na orelha de Mendes, este puxava seu rabo a dentadas até que o arrancou.

--- Auuuuuuuuuuuu! : (
--- Oh, Brutus amigo meu, o que me fizeste fazer.
--- Auuuuuuuuuuuu!
--- Não chore, querido, vou lhe fazer um curativo... Ei não me olhe assim, não vou ser traíra igual a você, antes de você pular em cima de mim, eu tive um sonho e através dele já sei como arrumar mais um defunto sem ser um de nós dois, amigo.
--- Auau Hooouuu. O cachorro latia entusiasmado, nem sentia mais a dor que fazia a falta de um rabo.
--- Amanhã de madrugada irei pular o quintal de dona Serafina, cavar bem muito até achar um cadáver, ok.
--- Auauau!
--- Sei que é ótima ideia, agora vamos dormir, que o dia promete.

Como fazia tempo que eles não dormiam com medo um do outro, aproveitaram a trégua e adormeceram até a madrugada do dia seguinte. Quando deu uma hora e quarenta minutos os alienados se prepararam para executar a façanha. Bill foi o primeiro a pular o muro, depois da segunda tentativa Mendes conseguiu. Fizeram pouco barulho, ninguém notara suas presenças.

Começaram a cavar, passaram duas horas cavando até que o cachorro desenterrou o pedaço de alguma coisa familiar.

--- Auau.
--- Xiiiiii, silêncio, podem nos ouvir.

Era um cadáver em perfeito estado. Mendes reconheceu, era a sombrinha desaparecida de dona Serafina. Ele abraçou o cachorro, sua coleção estava completa, agora eles poderiam colecionar coisas mais específicas como crânios, pés, cabelos entre outros. Porém algo inesperado aconteceu. O pedreiro amante da vizinha estava pulando o muro quando viu um vulto e deu um grito, cara frouxo.

Serafina veio ao quintal e viu na hora em que um homem pulou de seu muro para o quintal de Mendes, porém este tão alienado não notou ter sido percebido. Serafina e o amante chamaram a polícia. Enquanto isso na casa vizinha, Bill e Mendes realizavam seu sonho. A coleção estava completa, tinha cem cadáveres. Oh felicidade a deles, se abraçando, chorando, um latia e o outro também, por incrível que pareça.

Enfileiraram todos os defuntos, que ocuparam todo o espaço do quarto e banheiro. Dezenas sobre a cama, mais dezenas no chão, mais dezenas no banheiro e várias unidades no teto, parecia um necrotério de cabeças para o ar. Era defunto para tudo que é canto. Mendes resolveu comemorar, ligou o rádio e colocou sua música preferida, o dia dos mortos, ah, como ele e Bill estavam contentes.

Uma hora depois, alguém bateu na porta, ele disse que não receberia ninguém naquele dia, fosse quem fosse.

--- Meu senhor, mas é a polícia.
--- Estou nem aí, vá cuidar da sua vida seu infeliz.
--- Isso é desacato, abra a porta, sabia que pularam seu quintal esta madrugada?!
--- E daí, cuide de sua vida seu enxerido, hoje é meu dia e de Bill, não falaremos com ninguém.

A polícia preocupada que o dono da casa estivesse sob a ameaça do bandido resolveu arrombar a porta e entrara. Mendes não teve tempo de impedir a entrada dos policiais, Bill gritou e também não pode impedir.

--- Que odor é esse? falava um guarda.
--- Isso é invasão de domicílio, vou chamar a polícia, falava Mendes, desesperado.
--- Nós somos a polícia, chefe Pererão faça a vista na casa, acho que encontramos o meliante que assaltou a casa de dona Serafina.
--- Mas não levaram nada, replicou a velha.
--- Mesmo assim, foi tentativa... E que odor horrendo é esse vindo daquele quarto?

Mendes ficou desesperado, gritava, dizia que ninguém tinha o direito de invadir sua casa, que chamaria outra polícia para prender a polícia. O Policial chefe vendo o desespero do homem mandou que o segurassem, Mendes tentou fugir, mas foi pego. O guarda mandado pelo policial foi em direção ao quarto para ver o porquê de lá sair tanto odor, na verdade todos estavam curiosos para saber o segredo de Mendes.

Enquanto isso, o cachorro estava atordoado, tentava impedir a entrada do guarda no quarto de qualquer jeito, ameaçou mordê-lo, o mordeu e mesmo assim não deu em nada, latiu, não deu em nada, escondeu a chave debaixo do rabo, mas como não tinha rabo não deu em nada, por fim dançou e cantou “Velha infância”, mas também não deu em nada.

O guarda abriu a porta do quarto e todos se aproximaram. Foi então um choque, um horror, um pavor, um terror e tudo que rimar com estas terminações assombrosas. Aquilo deixou todos perplexos, no quarto havia incontáveis cadáveres. De repente o corpo da sobrinha de dona Serafina caiu justo em cima da tia, que desmaiou na hora. Foram no banheiro e lá estava lotado de defuntos, um defunto, porém, se sobressaia entre todos, era o de titia Ambrosilda, sentado no vaso sanitário. Mendes e Bill estavam horrorizados, eles nunca colocaram titia nessa posição.

--- Uma morta já não pode mais fazer suas necessidades fisiológicas em paz hein... Reclamava titia Ambrosilda, piscando o resto do único olho para o sobrinho e o cachorro amigo.
--- Oh, cruzes, ave, bicho do mal, coisa ruim, demônio...! Exclamavam.

E todos, sem exceção, saíram correndo assombrados da casa de Mendes, inclusive o próprio Mendes e o cachorro, todos correram tanto que quase criaram asas e dizem que até hoje ainda correm.



Lizandra Souza

1 Comentários:

Universo dos Leitores 13 de agosto de 2013 16:15  

Olá Lizandra! Adorei o texto, super divertido!

Abraços, Isabela.

www.universodosleitores.blogspot.com.br

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