Havia uma Perna Cabeluda no Açude do Tronco






Desde quando nasci, ouço a velha lenda popular de minha cidade de que quase toda noite em horas indeterminadas do mês de dezembro no açude do tronco, que fica muito próximo a minha casa, aparece uma enorme e peluda perna, que sai andando sem corpo e assustando as pessoas, dando nelas um admirável pontapé nos fundilhos. Você já deve imaginar que desde criança eu tenho muito medo de morar perto deste lugar e muito mais medo dessa perna cabeluda que por tanto tempo me assombra.
Meus pais acreditavam na tal perna cabeluda, mas não demonstravam o mesmo medo que eu, eles diziam que eu era homem e tinha que ser forte, que a perna nunca iria me machucar e que no mês de dezembro nós não sairíamos á noite de casa para não encontrar no caminho a perna cabeluda, porém nunca consegui tirar da minha cabeça a tal lenda.
Quando criança eu evitava o máximo andar só pelas redondezas, pois eu sempre tive a impressão de que um dia a perna me daria um pontapé e isso me assombrava noite e dia. Para eu ir para a escola era uma batalha que eu lutava diariamente, por mim eu nunca sairia de casa, mas meus pais me obrigavam a estudar. Eles me deixavam e me buscavam na escola durante alguns anos, o que me dava um pouco de segurança.
Fique desde já entendido que eu sofria bullying por parte dos meus colegas, que riam de mim e faziam eu me sentir o maior dos covardes da terra, porém o meu medo de andar só não permitia que eu tomasse a decisão de sair das asas de meus pais, assim durante onze anos fui chacota de todos da escola, das ruas e da pequena cidade onde eu morava. Um dia um acontecimento veio para destruir minha vida, meu pai foi atropelado e morreu antes de chegar ao hospital.
Meu pai morreu, foi enterrado, sofri e pronto. O que passou a me atormentar foi que depois da morte dele minha mãe tinha que se dobrar no trabalho, o que não restava tempo para me deixar na escola, assim fui obrigado e espancado para ir á escola sozinho. O tempo passou e eu já era adolescente e o misterioso caso da perna cabeluda com vida própria só piorou minha vida, minha mãe me levou para diversos psicólogos e cogitou a levar-me para um psiquiatra, porém eu resisti o máximo que pude, mesmo com toda a dor das surras que ela me dava, eu não estava louco, apenas tinha um enorme medo de um ser abominável.
Quando fiz dezoito anos, meu medo já não era o mesmo, eu já levava uma vida quase normal, saía com meus amigos, tinha meus amores e minha mãe já tinha um emprego fixo, o que possibilitava de termos mais tempo juntos. Eu saía quase todos os dias, menos no mês de dezembro, o que acontecia é que eu acabei com os anos reprimindo o meu horror da perna, disfarçando meu medo.
Certo dia um trágico acontecimento acabou com minha suposta paz interior, minha mãe, faltando duas semanas para completar quarenta e nove anos, teve um enfarto e faleceu. Com essa eu não contava, eu não tinha nenhum parente vivo e não sabia o que iria fazer da vida, minha sorte é que nós morávamos num sítio o que não faltava eram alimentos, mas o que me deixava angustiado era ter que viver só.
Antes de morrer minha mãe me fez lhe fazer um juramento, que diante da situação eu tive que aceitar. Ela me fez jurar que eu iria ter uma vida normal e que deixaria de ter medo da perna cabeluda, no fundo ela sabia que eu tinha pavor da perna, ela era minha mãe e me conhecia perfeitamente. Quando chegou o mês de dezembro meu mundo acabou, eu estava morto de medo, me tranquei em casa durante as duas primeiras semanas.
Tomei uma decisão depois de ter um sonho, nele meus pais apareciam para mim e me diziam que estavam decepcionados com a minha covardia, que isso não era normal e me disseram uma coisa que me desestruturou completamente:

---- Arthur, querido! Você está fazendo tudo errado. A perna vai vir atrás de você qualquer dia desses, sabia?
---- Não... não!
---- Pois é o seguinte, a perna cabeluda vem atrás de pessoas covardes e que moram sozinhas... É o que ela gosta, de medrosos desprotegidos... Filho você está fazendo tudo errado em se esconder dela.
---- Meu Deus, mas o que eu faço papai?
---- Siga a perna, a procure, acabe com ela... Vença ela antes que ela acabe com você com um pontapé... Filho escuta teu pai... Filho não fique...

Acordei em choque, o que meus pais me disseram durante o sonho era um aviso celestial. Só poderia ser, pois desde que eles morreram nunca eu havia tido um só sonho com eles, e além do mais, eu sempre fui muito supersticioso. Decidi de aquele dia em diante procurar a perna e acabar com ela, era melhor do que ela vir atrás de mim, antes ser o caçador a ser a caça.
Comecei a botar meu plano de caça à perna em ação, já estava com duas semanas e três dias do mês de dezembro, ela deveria estar louca para dar o bote, ou melhor, o pontapé, era preciso que eu agisse rápido ou eu seria a próxima vítima. Quando anoiteceu saí de casa e fui para o açude do tronco, não demorava muito para chegar, o lugar ficava perto do sítio.
No caminho tive uma vontade enorme de voltar para casa, aquilo parecia loucura, mas quando me lembrei de que ela viria atrás de mim de qualquer jeito, continuei andando. Quando cheguei ao açude apesar de estar escuro, a luz da lua e da lanterna que eu levei clareava o bastante para eu ver as coisas ao meu redor.
Um calafrio passou por entre as minhas pernas e de repente eu escutei um ruído, um barulho muito irritador, olhei para os lados e nada vi além das arvores, foi então que percebi que o ruído era dos meus dentes que estavam batendo. Senti que iria molhar as calças, então decidi fazer xixi antes do meu encontro com a perna cabeluda, seria muito humilhante ela me ver fazendo aquilo.
Fui para a beira do açude, abaixei a calça, e quando estava fazendo o desejado vi a coisa mais impressionante do mundo. O terror tomou conta do meu corpo, eu comecei a me tremer da cabeça aos pés. Depois o horror me deixou paralisado. A água do açude começou a se elevar e de repente do meio da água começou a se mexer e a sair lentamente o monstro.
Ela era medonha, acho que não poderia existir coisa mais horripilante, fiquei perplexo ao ver que o tamanho da perna cabeluda era seis vezes maior que o meu, ela era do tamanho de um gigante, fiquei horrorizado ao ver que ela era totalmente cabeluda, os cabelos eram negros, grossos e espantosos, iam da coxa até o pé e mal se via a pele, que notei ser vermelha, não dava para ver direito, mas acho que era vermelha e ela era incrivelmente cabeluda.
Caí no chão, não conseguia mandar nos meus membros, enquanto isso ela se movia lentamente em minha direção. Consegui me arrastar um pouco, minha calça ficou no chão e sai me arrastando lentamente até no meio da areia. Olhei para trás e ela estava já fora do açude, e quando vi seu enorme e peludo pé consegui dar meu primeiro grito. Eu não queria acreditar no que estava vendo. As unhas do pé dela eram quase do meu tamanho.
De súbito minha voz voltou e eu comecei a gritar e a chorar. Foi então uma choradeira, um berreiro que era capaz de mover as águas do açude. Consegui ficar de pé e sai correndo o máximo que pude, mas acabei tropeçando e caindo e quando olhei novamente para ela, vi que a perna cabeluda já tinha me alcançado.
Ela estava aproximadamente a três ou quatro metros de mim, o que me fez desatar a gritar. Ela se movia lentamente, parecia o demônio vindo buscar sua vítima para levá-la ao inferno. De brusco peguei nos meus glúteos e comecei novamente a chorar, eu sabia que era a última vez que os sentiria.
De repente a perna cabeluda parou de me seguir e começou a fazer uns movimentos assombradores. Olhei para ela e vi que ela não tinha olhos, nariz, boca e ouvidos, ou seja, nenhum sentido aparentemente que me denunciasse estar próximo dela, então me perguntei como ela saberia me alcançar? Tive a resposta de imediato, à perna cabeluda tinha todos os sentidos escondidos na cabeleira, pois ouvi um riso que me fez cair e quase perder os sentidos.
Alevantei-me, mas já era tarde de mais. Ela se aproximou de mim e falou com uma voz forte e rouca:

--- Vire-se para mim humano dos fundilhos saudáveis.
--- Jamais perna cabeluda você terá o gosto de tocar em mim.

Só deu tempo de falar isso, a perna cabeluda levantou o único pé com um equilíbrio impressionante e notei que ela estava flutuando. É... Ela estava flutuando, pois como levantaria o único pé e não cairia no chão. Ela girou o único pé para a esquerda o contorcendo lentamente e fez o mesmo girando-o para a direita, então ela ergueu o pé e quando fui perceber ele já estava nos meus fundilhos, dei um grito agonizante quando o pontapé me fez andar aproximadamente quatro metros de distância, me fazendo bater em uma árvore. Foi uma dor horrível, nunca vou esquecer, até hoje me dói os fundos, quando chega o mês de dezembro.

Depois de satisfeita por ter me dado o pontapé certeiro, a perna cabeluda voltou para o açude, desaparecendo nas águas. Eu, mesmo com toda a dor, consegui voltar para casa. Chegando lá uma coisa me deixou feliz por demais quando olhei para meus glúteos e lá vi prendido um pedaço quebrado da enorme unha da perna cabeluda. Com isso aprendi duas lições, a primeira é nunca acreditar nos sonhos como aviso e a segunda é nunca ir atrás da perna cabeluda, pois a experiência é dolorosa por demais.


Lizandra Souza.

17 Comentários:

Kathy 20 de dezembro de 2012 10:13  

chorei aqui . kkk sera q tem perna cabeluda aqui na minha cidade? fora a da minha tia ... kkkk

Pâm Possani 20 de dezembro de 2012 15:07  

HASUDHASUDHSAUDHAUSH eu ri muito com esse conto, com certeza nunca irei atrás de uma perna cabeluda, Mon Dieu! Adorei! HASDHSADHAUHSA
Vixe, falando em dica de livro, nem me lembre, guria! Tenho muitos para ler aqui rsrs
Superemos! *-*
Um beeijo!
Pâm
http://interruptedreamer.blogspot.com.br/

Lizandra Souza 21 de dezembro de 2012 08:53  

RSRSRS dá tua tia é, rsrs... Obrigada pela visita, beijo : )

Lizandra Souza 21 de dezembro de 2012 08:55  

Oi Pâm, nunca iremos atrás da perna cabeluda rsrsrs, realmente nós superemos, minha lista é enorme, obrigada pela visita, beijo: )

Pâm Possani 21 de dezembro de 2012 13:31  

Magina! Eu que agradeço,viu?
HAHA
Que fofa! Então somos parecidas, ou simplesmente amantes de leitura,né? HAHAHA
alguém que ama Feios! ebaaaa \o/
um beijo!
Pâm
http://interruptedreamer.blogspot.com.br/

Lizandra Souza 22 de dezembro de 2012 08:09  

De nada... Pois eu também agradeço, parecidas e loucas por leitura rsrs... Beijo : )

Kéziah Raiol 23 de dezembro de 2012 21:17  

Estou rindo que nem doida aqui AHUSAHSUHASHHUA'
Menina eu adorei, que isso de perna cabeluda hein?
Quando comecei a ler fiquei até com medinho HUASHUHAHS'
Será que na minha cidade tem muitas pernas cabeludas? hahaha'
Amei amei.
Parabéns!

Beijocas
paixaoliteraria.com

Lizandra Souza 25 de dezembro de 2012 10:16  

Oi Kéziah, que bom que gostou, obrigada pela visita, beijo : )

Bruna 26 de dezembro de 2012 13:22  

Gostei bastante do conto!
Beijos

cocacolaecupcake.blogspot.com.br

Lizandra Souza 26 de dezembro de 2012 13:48  

Olá Bruna, fico feliz que tenha gostado, obrigada pela visita, beijo : )

Fran Borges 7 de janeiro de 2013 15:34  

Oi Lizandra, estou rindo muito aqui. Fiquei até com do coitado no final.
Mais a lição foi ótima. Parabéns pelo conto, gostei muito.

Beijos

http://poesiasprosasealgomais.blogspot.com.br/

Lizandra Souza 8 de janeiro de 2013 06:57  

Olá Fran, que bom que gostou. Obrigada pela visita.

Beijo ; )

Anhy Menires 17 de janeiro de 2013 11:06  

Perna Cabeluda essa foi de matar. kkkkkkk
Ri demais.. coitado, vai ficar com trauma para sempre..
:D
http://anamenires.blogspot.com.br/
Ah, vou te dizer quando eu começar a postar a história sim"

Lizandra Souza 17 de janeiro de 2013 12:05  

Oi Anhy, diga sim, estou aguardando, amei o título. Obrigada pela visita.

Mega beijocas ; )

Lilandra Divinity 28 de março de 2016 20:37  
Este comentário foi removido pelo autor.
Mônica Ribeiro Marques 18 de julho de 2016 22:19  

Kkkkkkk em Fortaleza entre as décadas de 80 e 90 essa lenda se tornou muito forte,com o auxílio de um programa de radio de muito sucesso chamado João Inácio Junior,onde tinha um quadro de sobrenatural,eu era criança e tinha acabado de mudar para um bairro literalmente novo chamado Araturi eram prédios de quatro andares e muito mato e lugares ermos,em Fortaleza dizia que guarda roupas eram espécies de portais onde ela aparecia,olha eu pequena naquele cenário de filme de terror e bombardeada pela lenda da perna cabeluda,eu vivia apavorada foram tempos difíceis.

Lizandra Souza 21 de julho de 2016 11:53  

Também sou do Ceará, Mônica, sei bem hahaha conheci a lenda por volta dos anos 2000, no interior ela ainda estava em alta huahuahua

Postar um comentário

Obrigada por comentar.

  © Loucuras e Devaneios by Liza

Design by Emporium Digital