A ÚLTIMA GOTA


Ele caminhava debaixo da chuva, que cada vez ficava mais forte, as portas das casas iam se fechando na medida em que ele caminhava. Ele estava usando roupas simples, calção e camiseta preta. Ele olhou para o lado da calçada onde ficava um pequeno comércio de alimentos diversos, no mesmo instante passou duas crianças correndo na direção contrária a sua, ele as olhou fixamente, elas pareciam se divertir naquela chuva, enquanto as pessoas procuravam abrigo para não se molharem, e ele o que estava fazendo parado no meio do calçamento?

A chuva ficava cada vez mais forte, os carros tinham dificuldade para correr, as crianças já tinham ido embora, as ruas se esvaziavam, viam-se alguns cachorros vira-latas correndo no meio da estrada. Ele andou até uma pequena lojinha que já estava lotada de gente dentro, não tinha espaço para ele, quando entrou as pessoas o encaravam, viravam a cara, todas preocupadas, pensando quem era ele, malvestido e estranho.  Ao ver a reação na cara das pessoas, ele ficou triste, uma moça razoavelmente bonita com ares de educada e soberba aproximou-se dele, dizendo que não a levasse a mal, mas a sua companhia não era bem-vinda ali, pois ele estava desgostando os clientes.  Ele abaixou a cabeça e foi andando em direção à saída, olhou mais uma vez para trás, a moça já não o olhava, estava sentada bebendo café e oferecendo aos soberbos clientes.

 Chegando novamente à rua, percebia-se um aglomerado de carros, motos e transportes em geral. Passou um ônibus, ele deu com a mão, mas não obteve retorno do motorista, já havia passado umas horas e ele continuava a andar e a observar as pessoas. Agora a chuva forte já estava se transformando em uma fraca neblina, ele olhou fixamente para o céu e de lá observou uma gota caindo lentamente, ela começava grande e no caminho seu tamanho ia diminuindo, sua densidade se metamorfoseando, aquela gota deveria significar algo para ele, pois ele a olhava fixamente, conseguia até ver por trás de sua identidade, de sua transparência, de sua forma, a última gota caiu no chão, misturando-se com a terra e com seus compostos, ele voltou a observar o parque onde tinha acabado de chegar sem perceber, ele não estava parado olhando a gota se mover, ele estava sendo guiado pela gota.

 A chuva já tinha se esgotado por completo, agora o céu brilhava com a luz quase cor de topázio do sol, no banco perto do vendedor de pipocas, estavam um casal de velhinhos conversando, eles pareciam rir, há quanto tempo ele não ria, apareceram mais crianças correndo, no pula-pula, no escorregador, brincando com bonecos, carrinhos, coisas de criança, comprando doces, salgados e sorvetes, se sujando no chão molhado, ao redor dessas crianças tinha muitos adultos, o que ele constatou que alguns eram os pais das crianças, quando uma delas, uma menininha caiu e logo uma mulher com belas e ternas feições correu ao encontro desta, fazendo-lhe carinhos para que a pequena não chorasse, viu também um homem muito legal brincando de bola com dois garotinhos peraltas, eles chamavam o homem de pai, a menina chamava a mulher de mãe, as crianças, os adultos, os cachorros e gatos pareciam se divertir, brincar, amar.

Ele sentiu algo nos pés, era a bola do gordinho peralta, o menino veio em sua direção, ele entregou-lhe o pertence, o outro saiu sem o agradecer, ele observou o menino correndo chamando a palavra pai, ele viu um palhaço andando em uma bicicleta colorida, dando doces a todos, desejando um feliz dia das crianças para todos, por um momento ele esqueceu a gota e fez direção para se aproximar do palhaço que ao vê-lo saiu em direção oposta!

Ele então viu a alegria das crianças, brincando, se divertindo, tendo pais, brinquedos e infância, coisa que ele apesar de ter oito anos não possui. O vento soprou algo em seus pés novamente, desta vez era um pequeno panfleto pregado nas bordas de um minúsculo bombom, ele não sabia que ali estava escrito um ''feliz dia das crianças'', mas ao olhar a pequena imagem de um neném no colo de sua mãe, ficou triste, ele nunca teve e nem terá um carinho desses, ele é apenas um menino de rua, órfão e marginalizado, ele baixou a cabeça, agora ele sabia o significado daquela gota no céu. Saiu andando não olhando para trás, mesmo com vontade de ver aquela alegria, não por inveja, mas por curiosidade e vontade de ser feliz assim, ele olhou o papel e nele caiu a última gota de esperança de seus olhos. 


Lizandra Souza.

5 Comentários:

Pâm Possani 10 de dezembro de 2012 18:43  

UAU que texto lindo e cheio de significado, garota! Meus olhos estavam sentindo gotas dessas,de esperança, muito lindo :')
AAH ,eu também, faz tempo que não leio Meg :')
Muito obrigada, querida
Boasemana!
Um beeijo!
Pâm
http://interruptedreamer.blogspot.com.br/

Lizandra Souza 11 de dezembro de 2012 14:07  

Oi Pâm, obrigada a você também... Que bom que você gostou do conto, e que entendeu o significado da gota, ótima semana para você também, linda, beijo : )

Lola Mantovani 12 de dezembro de 2012 08:33  

Que lindo, as vezes julgamos as pessoas e nem sabemos pelo ue ela passa.
beijos

Lizandra Souza 12 de dezembro de 2012 08:56  

Oi Lola, que bom que gostou, obrigada pela visita, beijo : )

Fábio Murilo 15 de abril de 2014 16:46  

Que conto triste e terno, Lizandra. Triste realidade essa dos excluídos, dos desafortunados da sorte.

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