O Mistério da Casa Mal-Assombrada




Diário de...


Não leia, eu escrevi isso depois que...

05.10.199...
Esta noite eu não consegui dormir. Ontem eu não consegui dormir. Antes de ontem foi a mesma coisa...
Há poucas semanas, desde que eu me mudei para minha nova casa no... eu escuto vozes, gritos e barulhos estranhos todas as noites... Aparentemente é alguém querendo me assustar. É insuportável, toda noite é a mesma coisa: "Maldita! Saia daqui sua intrusa, você irá se arrepender se não sair de minha casa... vá embora ou eu vou levá-la para...".
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06. 10. 199...
Susane Clinton. Esse é o nome da mulher que todas as noites tira o meu sossego e o meu sono. Uma desgraçada que quer me assustar para se vingar... A causa de todo esse ódio é que mês passado disputamos a compra da casa na qual atualmente moro... e também porque o senhor Boris, antigo proprietário, me deu, desde o princípio, a preferência da compra. Susane, despeitada, teve que comprar a casinha que fica nos fundos da minha.
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07.10.199...
Chega! Não aguento mais esta situação. Decidi procurar Susane para dizê-la que eu não tenho medo de nada e que se ela continuasse a me atormentar eu iria matá-la. Foi o que eu disse, depois do acontecimento da noite de ontem que já vou contar. Estava eu no banheiro tomando banho quando de repente a luz se apagou, não tive medo, mas pela situação dei um grito e na mesma hora escutei risadas horripilantes...
Enrolei-me com uma toalha e sai do banheiro, chegando ao corredor da cozinha escutei pisadas e perguntei: "Quem está aí? Responda...". 
De repente, a porta da cozinha, que fica no fundo na casa, se abriu sozinha, deixando entrar uma rajada de vento... foi aí que dei outro grito e escutei mais uma risada. Fiquei com ódio e pensei em quem poderia estar me assustando... é... essa pessoa só poderia querer me assustar, aquele não era o comportamento de um bandido ou malfeitor, mas de alguém que queria me fazer medo. Depois desta hipótese, bem sucedida, eu resolvi ir até o quintal dos fundos para ver quem era que tinha invadido minha casa, mas chegando lá não vi ninguém. A porta da casa de Susane estava fechada, mas eu tinha certeza de que isso era coisa dela.
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08.10.199...
Na manhã seguinte, encontrei com minha vizinha e lhe falei o que já escrevi... Ela me chamou de louca e disse que não era de fazer essas coisas: "Eu nunca faria isso... aliás, ontem nem dormi em casa, louca!". Mas eu insisti: "Você não me engana sua falsa... invejosa, você está com raiva porque Seu Boris preferiu vender a casa para mim e não para você". Ela gritou: "Você é uma oferecida, sei que você saiu uma noite dessas com Seu Boris...". Susane falou mais algumas coisas que não acho necessário repetir e saiu. Agora é que eu fiquei mesmo com raiva, como ela era capaz de tal calúnia? Eu tenho que me vingar.
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09.10.199...
Á noite, eu resolvi dormir tarde... Fiquei assistindo televisão, novelas e filmes chatos, nunca gostei de televisão, mas eu não queria dormir cedo.
De madruga senti sede e fui tomar água... Não tinha na geladeira, resolvi tomar água da pia, quando abri a torneira ao invés de água saiu um líquido vermelho, cheirei e parecia sangue, tomei um susto e sai correndo para o meu quarto.
Será realmente que eu estava ficando louca e as vozes que eu escutava de noite e os vultos que eu via pelo corredor e todas as coisas estranhas que acontecia em minha casa era fruto de minha imaginação?... E será realmente que Susane não era a culpada?Pensei tanto que acabei voltando a dormir e nem percebi.
***

10.10.199...
Às sete e meia da manhã, acordei, fui até a cozinha e chegando lá fui ver a pia, abri a torneira e para minha surpresa saiu água, fiquei sem entender nada, como na noite passada saiu sangue e hoje água?Escutei um barulho no quintal, fui ver e lá estava à causadora de tudo, Susane estava em cima de minha caixa d’água (na verdade minha e dela, pois a caixa pertencia às duas casas). Ela, quando me viu, falou cinicamente: "Acredita que caiu um gato dentro da caixa d’água...".
Fiquei furiosa, pois é claro que tudo isso foi um plano dela... O sangue era do gato. "Sua sínica, não tem vergonha de assassinar um pobre animal para tentar me assustar e fazer com que eu saia desta casa?". "Não sei o que você quer insinuar...". "Você jogou o gato aí de propósito...". "Sua louca, eu tirei o pobre gatinho de dentro da caixa.". "Do que adianta se ele está morto...". "Ele não está morto, olhe bem!"... Com surpresa, percebi que o animal estava no chão se esfregando em seus pés e que ele não tinha nenhum ferimento. O gato tinha ficado enganchado na "rede" de proteção da caixa d'água.
Depois de algumas reflexões, eu cheguei à conclusão de que tudo não passava de um sonho, ou melhor, pesadelo. Na verdade, não fiquei com medo, mas com curiosidade, pois esses supostos acontecimentos sobrenaturais não me assustam.  E para provar que estou falando a verdade vou contar o que aconteceu noite passada ao chegar a casa, ás doze e meia.
Eu tinha deixado todas as luzes fechadas por isso quando entrei estava tudo no escuro. Escutei pisadas vindas do corredor e é claro que já sabia que era minha rival tentando me assustar. "Pode fazer o que quiser... até soltar essa sua risada de bruxa que não tenho medo...", gritei.
Corri atrás de minha algoz pelo corredor com as luzes ainda fechadas, esbarrando nas paredes com uma excitação anormal, foi quando de repente as luzes acenderam sozinhas. Desta vez fui eu que soltei uma risada horripilante... Afinal de contas, ela fugiu de mim. Fui me deitar, pois já estava amanhecendo.

11.10.199...
Acordei com muita felicidade e pensei que se hoje ela viesse eu é quem iria assustá-la.
Escutei uma gritaria que me tirou de meus pensamentos, fui até a rua para saber o que tinha acontecido e soube que na noite anterior um dos filhos de Susane falecera e que ela tinha passado a noite no hospital.
Aquilo me intrigou bastante, como Susane ontem esteve no hospital e aqui em casa tentado me assustar? Já sei, ela veio aqui e depois voltou para lá e a morte do filho veio a calhar, pois serve de desculpa.
Esta noite mais uma vez Susane não me deixou dormir, dessa vez com um barulho horroroso de velório. Não senti pena, afinal, todos um dia morreremos e ela bem que merecia sofrer.
***
12.10.19..
Continuo escutando, toda noite, gritos de uma mulher agonizando. Susane nem durante a morte do filho deixou de me perturbar.
E se superou, eu já estava indo me deitar quando uma voz dizia: "Você irá morrer amanhã, depois de tudo o que eu fiz para você abandonar meu túmulo você insiste em continuar aqui... Você vai morrer sua incrédula desgraçada, você terá até amanhã para sair daqui senão este será o lugar de sua morte e permanência eterna...".
Fiquei perplexa, Susane queria me assassinar, mas isso não iria ficar assim, pois eu a mataria primeiro. Só havia um problema, eu tinha menos de vinte e quatro horas para planejar o crime e executá-lo. Pensei bastante em várias maneiras de fazer o crime perfeito, é claro que eu não queria parar na cadeia. E se eu a envenenasse ou a esfaqueasse, não... isso era muito banal e repetitivo, queria um crime inovador, não sei nem se posso chamar isso de crime, só estou me defendendo da ameaça dela, e sei bem que ela é capaz de tudo para conseguir o que quer.
***
13.10.19..
Articulei o crime triunfal, aquele que se volta contra o agressor, ela disse que iria me matar aqui em casa, pois será aqui que ela irá morrer. Fui olhar o relógio e eram três e meia da madrugada...
Vai ser agora. Ela deve estar desprevenida pensando que estou arrumando as coisas para a mudança... Coitada! Nem sabe que esse será o seu fim, pensei.
Fui até á cozinha, abri a porta dos fundos na qual dava para ver direitinho a casa de Susane. Fui até a casa dela e bati na porta, antes de abrir ela perguntou: "Quem é?". Eu não respondi e continuei a bater, mais uma vez ela perguntou e eu disse: "Abra sua covarde, sou eu.". Quando eu vi que ela iria abrir a porta, eu saí correndo em direção a minha casa. Ela saiu e veio atrás de mim. Ela bateu na porta e eu disse: ''Entre''!
Quando ela entrou em minha casa, eu acertei em cheio seu pescoço com uma foice que eu tinha guardada e que na ocasião eu tinha deixado atrás da porta. A cabeça se separou do corpo e sujou toda a cozinha de sangue... Nunca vi algo parecido, olhei bem para o corpo mutilado e comecei a rir e a dizer: "Viu sua besta, quem pode mais sou eu, quem mesmo que você disse que hoje iria ter fim...?". Mas eu sabia que ainda não tinha acabado, tinha ainda que me livrar daquele cadáver. Até este momento eu estava completamente feliz, tinha acabado com meu tormento e agora poderia dormir e viver em paz, mas tudo isso acabou e se tornou em fúria e desespero.
Quando eu estava prestes a começar a limpar a cozinha uma voz agonizante falou: "Sua burra cética, matou a pessoa errada, Susane nunca lhe havia feito nada, assassina desalmada, você matou uma inocente... Você está condenada a viver em tormento". Não pode ser, eu estava louca ou existia um fantasma em minha casa, mesmo depois de ter matado Susane a voz que me perseguia continuava a existir e a...
Fiquei transtornada... "Você irá me pagar, seu fantasma insolente, não tenho medo de você, venha aqui, apareça, dê as caras seu mostro.", gritei freneticamente. A voz falou: "Estou em outro mundo, minha matéria não pode aparecer fisicamente, mas meu espírito irá lhe atormentar para sempre.". "Ah... não vai não", gritei.
Em um excesso de excitação e loucura, eu coloquei fogo na casa comigo dentro. "Eu é que vou atrás de você aí no outro mundo... Não tenho medo... sua entidade desgraçada..".
Assim, morri queimada e estou agora aqui do outro lado da existência com Susane e o Ser que me perturbava, discutindo nosso drama existencial.




Lizandra Souza.

2 Comentários:

Lola Mantovani 23 de setembro de 2012 07:49  

ai que medo,amei o conto,fi ou perfeito.
beijos

Alba Simões 1 de março de 2013 09:12  

Aterrorizante mais muito criativo.
Me fez lembrar sobre as conclusões existencialistas de Sartre!
Beijos

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