A vingança da galinha



A vingança da galinha
Depois que a comeram e os anos se passaram, ninguém daquela pequena família imaginava que ela estava de volta com um maligno desejo de vingança. Coitada da galinha, foi morta cruelmente, comeram seus filhos e ainda aquele terrível homem acessou suas intimidades a busca de ovos, mas agora ela veio do além para acabar com aquela família de hipócritas.

Indícios
Em vésperas de natal a mulher chega para o marido e pergunta o que será feito para servir na ceia, ele responde:

--- Aquele peru do Ceará, bem assado, com os aperitivos de sempre.

Ela sai calada, sem contestar a ordem do esposo. Na cozinha, fica entretida escutando o podre do “forrozão” de sempre, até que se assusta com os gritos da filha:

--- Olha mãe o que eu achei.

Falava a pirralha com a dita galinha nas mãos. A mãe perplexa olha a menina e pergunta:

--- Onde você pegou essa galinha?
--- Achei-a lá no quintal, olha mãe, essa não é a Odinha?
--- Deixa de besteira menina, comemos a Rosinha há tempos.
--- Mas, mãe...
---Nada menina, me deixa em paz, tenho mais o que fazer, amanhã já é natal, me deixa terminar isso... E guarda essa franga.

A pequena
A pequena saiu calada, chegando ao quintal coloca a galinha no chão e a olha fixamente, depois de uns minutos a galinha cacareja e sai correndo em direção ao cacimbão. A menina corre atrás dela. A galinha chega perto das bordas. A menina também. A galinha ataca a menina. Esta cai e grita chamando pela mãe. Não recebe retorno. O forró tocava alto. 

Ela grita de novo quando a galinha dá uma bicada em seu pé esquerdo. Na cozinha se ouviam os gritos de Jurema cantando “ai se eu te pego”. Mas no quintal a menina é que foi pegada pela galinha, que com uma voadora a desequilibrou, a derrubando no cacimbão. Segundos depois a pequena morreu afogada, não sabia nadar.

O imbecil
Quando anoiteceu a mulher já tinha se cansado de trabalhar e deu falta da filha. Depois de ter procurado por todos os lugares, o marido, preocupado com a primogênita, decidiu sair para procurá-la na rua. Jurema tinha trabalhado tanto que quando deram onze horas o sono falou mais alto, a coitada acabou dormindo no sofá. Enquanto isso, Filirmino bebe umas cervejinhas no bar com uns amigos e amigas, ele cansara de procurar a filha, pensou que ela já estivesse em casa sã e salva nos braços da mãe.

Ah! Como ele amava aquela peraltinha... Depois das doze horas, Filirmino, já satisfeito com a vida, foi para casa. Logo na entrada ele avistou a galinha na porta. O homem ficou endiabrado. Ninguém sabia, mas ele odiava os animais, principalmente os alimentícios. Ele gritou:

--- Xô animal fedorento, vai para o chiqueiro coisa ruim...

A galinha saiu correndo, ele foi atrás, caiu no chão, a bebida já estava fazendo efeito. Mesmo assim, ele se levantou e conseguiu pegar a galinha. Ele a carregou com brutalidade até dentro de casa, a mulher com o barulho do infeliz e os cacarejos da galinha acordou.

--- Filirmino, isso são horas... e esta galinha?
--- Cala a boca mulher e faz uma canja com esse bicho para mim...
--- Mas são três horas da manhã... E a menina, onde está a nossa filha?
--- Eu pensei que ela já estivesse em casa, e cansei de procurar, ela deve ter ido á casa de uma coleguinha, não esquenta... E faz logo o que eu mandei... 
--- Calma! Já vou fazer uma canjinha com essa franga.
--- Vai...

A grande vingança
Mais uma vez Jurema acatou as ordens do marido machista. O que ninguém imaginava é que a galinha não podia morrer, pois já estava morta. Na cozinha, a mulher pegou os ingredientes para fazer a canja. Enquanto isso, a galinha armava sua vingança horripilante. A mulher foi chamar o infeliz do marido para dar fim na galinha, ela não era muito boa em quebrar pescoços. Filirmino veio reclamando com a mulher, o efeito da bebida o deixava mais ignorante e grosseiro, chegando até em ameaçar a esposa:

--- Você não serve para nada mulher... Um dia ainda te faço um feito grande.
--- Calma homem! Eu só não gosto de matar galinha...
--- Ah... E cadê o bicho?
--- Sei lá... eu tinha deixado a galinha aqui... Vou logo colocar a água para ferver... Vamos escutar alguma coisa?
--- Pare de me amolar, pegue logo essa água, que eu ligo o rádio.

Filirmino ligou o rádio, colocou a “música” de sempre... Na hora em que o trecho da “música” dizia o seguinte: “Nossa! Nossa! Assim você me mata, aí se eu te pego... Aí se eu te pego...” e Jurema ligou o fogão, a casa explodiu, devastando tudo o que tinha lá dentro. Assim ''se foram'' Filirmino, Jurema e a pequena, todos pegados pela galinha, e agora você que leu essa loucura deve estar pensando, ou não, como a galinha fez isso e cadê ela.

A galinha quando viu a mulher sair da cozinha para chamar o infeliz marido, deu um pulo em cima do fogão e com o bico conseguiu ligar as torneiras da passagem de gás. Por isso tudo explodiu quando a mulher acendeu o fósforo. Não fique tentando imaginar como ela conseguiu tal feito, isso é um conto meio sobrenatural e bizarro, e a galinha é uma alma penada, soa estranho, mas a história é assim e pronto. 

Voltando á galinha, depois que armou o plano, saiu correndo de dentro da casa. No quintal, a galinha fez um barulho horripilante, parecendo estar possuída, o sol brilhou ao seu redor e ela sumiu do nada. Satisfeita com si mesma, agora ela podia descansar em paz na Frangolândia.


NOTA

Depois que li o conto “Uma galinha” da Clarice Lispector, fiquei com pena da galinha personagem do conto da autora e resolvi fazer um em que a coitadinha pudesse se vingar... Daí a frase do começo “a comeram e os anos se passaram”... Contudo, a galinha do meu conto se mescla com a da autora e com uma galinha (mais tarde descobri que 'era' um galo!) rosa (era literalmente rosa!) que eu tive quando criança, que se chamava Rosinha/o e/ou Odinha/o (apelidos!).


 Lizandra Souza

19 Comentários:

Bruno 18 de novembro de 2012 15:55  

Adorei a ideia de você criar um conto de resposta e que serve como uma vingancinha para a coitada da galinha...rsrsrs
Abraço!

Bruno
http://oexploradorcultural.blogspot.com

Pâm Possani 18 de novembro de 2012 17:36  

Achei engraçado, velho hasudhsa
]Você é realmente boa em escrever contos, sabia?
voce teve uma galinha rosa? :O
OMGGGG RSRS
muito engraçadinho, velho! rsrs
aaah muito obrigada, guria c:
Um beeeijo!
Pâm
http://interruptedreamer.blogspot.com.br/

Guilherme 18 de novembro de 2012 19:21  

É muito legal quando lemos um livro ou até mesmo algum conto e temos inspiração para criar outro né ? Eu mesmo sou assim hehe

Beijos.
Guilherme.
http://umcompulsivoleitor.blogspot.com.br

Lizandra Souza 19 de novembro de 2012 15:04  

Oi Bruno, obrigada pela visita, que bom que gostou da ideia da vingança da galinha rsrs, valeu. Abraço.

Lizandra Souza 19 de novembro de 2012 15:09  

Oi Pâm, realmente é engraçado rsrs, tentei colocar algo de sobrenatural, mas como se o personagem principal era uma galinha fantasma, vinda do além rsrs, fico muito feliz com suas palavras flor, obrigadão, beijos.

Fran Borges 20 de novembro de 2012 09:48  

Oi Lizandra, parabéns pelo conto! Adorei essa galinha vingadora e psicótica. A morte da menina foi o melhor para mim, você escreve muito bem e com um humor muito interessante. Parabéns

Beijos

http://poesiasprosasealgomais.blogspot.com.br/

Natalia Fanti 20 de novembro de 2012 11:23  

haha' eu nunca tinha lido nada parecido, mas adorei :)

Beijos
http://saindodarealidadel.blogspot.com.br/

Lola Mantovani 20 de novembro de 2012 11:59  

Amei esse conto, bem feito pra eles, mais coitada da mulher ela só recebia ordens.
#galinhadomal
beijos

Lizandra Souza 20 de novembro de 2012 14:44  

Oi Fran, que bom que gostou e obrigada mesmo por suas palavras são um incentivo para mim, beijos.

Lizandra Souza 20 de novembro de 2012 14:53  

Oi Natalia, que bom que gostou... Obrigada pela visita, beijos:)

Lizandra Souza 20 de novembro de 2012 14:58  

Oi Lola, realmente foi muito bem feito para eles rsrs, e a galinha é a bicha do mal rsrsrs, se uma amiga minha ouvisse isso ela iria ficar doida rsrsrs, beijos.

Sabrina Errera 21 de novembro de 2012 16:17  

Oi Lizandra, tudo bem?
Adorei o conto das galinhas, se a moda pega,rsssss
Beijos,
Blog Sabrina Errera

Lizandra Souza 22 de novembro de 2012 13:15  

Oi Sabrina,tudo bem... Que bom que gostou do conto, obrigada pela visita, beijos!

Pâm Possani 26 de novembro de 2012 08:01  

Hey, voltei aqui!
AAAH, ficou muito engraçadinha, aliás! esse negócio de vir do além e ser sobrenatural me lembra supernatural haha de um jeito diferente, né? rsrs
AAAH obrigada, querida *-*
Um beeeijo!
Pâm
http://interruptedreamer.blogspot.com.br/

Lizandra Souza 27 de novembro de 2012 12:35  

Rsrsrs agora que você falou, vim me dar conta, rsrs, lembra de uma maneira mais que bizarra, rsrs, obrigada digo eu por suas visitas, um beijo....

Layla Baummer 6 de dezembro de 2012 18:16  

Olá! Tudo bem?
Me diz, você gosta de séries, filminhos e livros meio drama, meio comédia?
Pois imagine que legal tudo isso numa história só!
Acompanhe meu blog, Next Exit , e divirta-se com a história de Layla, uma jovem de vinte e poucos anos totalmente perdida quanto ao seu futuro profissional.
Já estamos no segundo capítulo!
Novos posts todas as quintas-feiras às 20h.
Depois me diz se gostou!
Beijos

Lizandra Souza 7 de dezembro de 2012 10:10  

Oi Layla, vou dá uma passada lá no seu blog, gosto sim de drama, tragedia e afins, beijo :)

Gabriel Ribeiro Gomes 16 de dezembro de 2012 07:37  

Hahaha adorei você é bem criativa beijos :D

http://euvivolendo.blogspot.com.br/

Lizandra Souza 16 de dezembro de 2012 07:57  

Oi Gabriel, muito obrigada, que bom que gostou. Beijo : )

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