RESENHA: A BOLSA AMARELA DE LYGIA BOJUNGA NUNES


A bolsa amarela é uma novela de Lygia Bojunga, publicada pela primeira vez em 1976, uma em meio a tantas obras premiadas da autora, através da qual ela recebeu o selo de ouro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e o troféu Hans Chiristian Andersen, espécie de Nobel de literatura infanto-juvenil. A obra em referência desconstrói, através do discurso, padrões de pensamentos conservadores que não fazem sentindo de ser na contemporaneidade, tais como o machismo e o preconceito contra as crianças. 

A narrativa de A bolsa amarela se inicia com Raquel, personagem protagonista e narradora, revelando que tem vontades e que as quer esconder, mas ainda não sabe onde guardá-las. A menina, ao falar de seus aspirações, logo justifica que não são vontades simples, que ela chama de “magras”, mas vontades complexas ou “gordas”, as quais consistem em ser adulta, homem e escritora. Tais vontades são simbolicamente alimentadas pela repressão e exclusão familiar, pelo machismo e etarismo que Raquel sofre pela família.  Raquel, por ser reprimida pela família em várias situações de seu cotidiano, seja nos momentos de brincadeiras, nas reuniões familiares ou nas suas construções imaginárias, cria possibilidades de superação e de empoderamento através de sua imaginação aliada a escrita literária, por meio das quais ela transgrede, como válvula de escape, a realidade, para assim encontrar alguns momentos de felicidade.

Por se sentir sozinha e abandonada, a menina decide escrever algumas cartas para amigos imaginários que ela mesma cria, conferindo ao espaço da narrativa um caráter ambíguo, pois o mundo real (da família) é vinculado ao mundo imaginário, repleto de amigos secretos e de fantasias.

Através das cartas de Raquel para André, um amigo imaginário com quem ela “troca” correspondência, nós ficamos sabendo que a menina pertence a uma família patrilinear, de classe média baixa, composta por seu pai, sua mãe, duas irmãs e um irmão, todos esses mais velhos que ela, com diferença de idade de mais de uma década. Como consequência disso, de ter nascido “fora de hora”, como suas irmãs e irmão viviam dizendo-lhe, Raquel se sente muito solitária e incompreendida pelos mais velhos, pois eles consideravam que criança “não sabe grande coisa”, logo acabam que por desprezar os sentimentos, ideias e vivências da menina: “aqui em casa ninguém tem paciência comigo” (BOJUNGA, 2009, p. 13), diz Raquel ao ser deslegitimada pela família, ao ter sua voz silenciada e seus desejos desconsiderados pelos demais somente por ser criança.

Cansada de ouvir reclamações por causa das cartas inventadas que ela escrevia para si mesma/para seus personagens, Raquel resolveu escrever um romance, achando que assim sua família não mais lhe aborreceria. O romance era sobre a história de um galo chamado Rei, um galo descrito como “lindo de morrer”, que um dia ficou louco de vontade de largar a vida de galo. Rei morava num galinheiro com quinze galinhas, mas ele era um galo muito igualitário e justo, não gostava de ser chefe de família, muito menos, um galo-tomador-de-conta-de-vida-de-galinha, por isso resolveu fugir do galinheiro, se libertando daquele papel destinado ao seu sexo e, consequentemente, libertando as galinhas de serem suas submissas. 

Certo dia, uma das irmãs da Raquel achou o romance e decidiu lê-lo. Ela achou a história absurda e engraçada e deu para a mãe delas ler, a mãe leu e deu para o marido ler, ele, após ter lido, recomendou para seu filho que, depois da leitura, indicou para a outra irmã, essa, em seguida, ofereceu para a vizinha que sugeriu a história para o esposo que ainda por cima é síndico. Resultado: todo mundo riu e zombou não só da história do galo que não queria ser chefe das galinhas, mas também da própria Raquel, de suas ideias e convicções. Com raiva pela falta de respeito e empatia, a menina rasgou a história e acabou decidindo que só voltaria a escrever quando crescesse, pois ela pensava que só seria respeitada enquanto escritora quando fosse adulta. 

Depois de passar por muita censura e preconceito por parte de seus familiares, Raquel ganhou uma bolsa amarela num pacote de presentes enviados por uma tia rica da família, a tia Brunilda. A partir disso, a bolsa amarela passou a ser simbolicamente o refúgio ideal das suas invenções/objetos, como, por exemplo, dois galos, uma guarda-chuva mulher, um alfinete de fralda e, também, das suas vontades secretas (de ser menino, adulta e escritora).

No final da narrativa, Raquel, depois de ter superado muitos obstáculos, resolve não mais reprimir sua vontade de escrever por medo dos julgamentos alheios, assumindo também sua identidade de gênero feminina e conscientizando-se de que ela pode ser feliz sendo uma criança na medida em que ela conseguiu lidar com seus conflitos interiores (sentimentos) e exteriores (atitudes familiares) ao tirar da bolsa amarela as vontades de ser menino e gente grande e deixarem-nas ir, simbolicamente, embora, pois elas não lhe fariam falta por não possuir mais a necessidade delas.

REFERÊNCIAS

BOJUNGA, Lygia. A bolsa amarela. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2009.


Lizandra Souza.

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