O CONTO “O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS” DE LIMA BARRETO: UMA SÁTIRA DO COMPORTAMENTO SOCIAL

O conto “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto, foi publicado pela primeira vez em 1911, pela Gazeta da Tarde, vindo a ser publicado em livros algum tempo depois. Um relato satírico e crítico ao comportamento social hipócrita baseado nas superficialidades de aparências e no oportunismo, a narrativa é uma verdadeira obra-prima de Lima Barreto. O autor carioca desde o título já começa ironizando uma das temáticas do conto, que é o oportunismo relacionado ao falso saber, afinal o personagem protagonista Castelo, o homem que sabia javanês, na verdade não sabia javanês, apenas aparentava saber por ter conhecimentos de senso comum do idioma, pesquisados numa enciclopédia. 

O homem que sabia javanês representa uma sociedade na qual as pessoas, muitas vezes, usam de artificialidades para conseguir o almejado, não se preocupando em dissimular e enganar as pessoas, uma das características de Castelo no conto, como veremos a seguir. O conto dá início com a narração de Castelo, narrador e protagonista do conto, antecipando o que será contado no decorrer da narrativa para seu amigo, Castro, em uma confeitaria. Lima Barreto privilegia usar primeiro uma rápida descrição do caráter do personagem que é logo percebido nos primeiros parágrafos do que na descrição física que será exposta ao longo da história: 

Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado ás convicções e ás respeitabilidades para poder viver. (...) Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho... (BARRETO, 2003, p.9). 

Diante do exposto, percebem-se algumas características do caráter de Castelo. Um homem mentiroso, oportunista, dissimulado, que usa de façanhas e truques enganando as pessoas para conseguir o que quer. E isso se evidencia ainda mais quando ele, num determinado momento da narrativa, caracteriza-se como um “Gil Blas vivido”, que é um personagem de um romance do escritor Francês Lesage (1735), cujo protagonista é um aventureiro com grande talento para intrigas. Quando Castelo dá uma pequena pausa na conversa, seu amigo, Castro, ao invés de censurar suas atitudes desonestas, demonstra uma atitude de caráter semelhante a do amigo, ao dizer, fascinado e debochado, que Castelo tem “levado uma vida bem engraçada” (BARRETO, 2003, p.9). Em seguida é feita uma crítica sarcástica ao Brasil no questionamento de Castro admirado de como “tenhas ocorrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático” (BARRETO, 2003, p.9). Castelo respondeu-lhe que no Brasil é que “se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!” (BARRETO, 2003, p.9). Outra crítica social escondida atrás da comicidade exposta na fala dos personagens. Essa parece uma das maneiras utilizadas por Lima Barreto para criticar a sociedade, a artificialidade de aparências e a hipocrisia das pessoas, camufladas através de um acontecimento cômico, como o que acontece em “O homem que sabia javanês”, que na verdade não sabia javanês. Castro fica curioso com o comentário de Castelo sobre ter sido professor de javanês e pede ao amigo para contar-lhe como se deu isto. Castelo fala que desempregado, vivendo de casa de pensão em casa de pensão, não sabendo como ganhar dinheiro para poder se sustentar, após ler um anuncio num jornal, decide se passar por professor de javanês, pois logo pensou que seria uma colocação com pouca concorrência, e na verdade ele precisaria apenas aparentar saber javanês. “Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me.” (BARRETO, 2003, p.10). Fica assim sugerido que Castelo sabia que através de artificialidades e de falsas aparências ele conseguiria o que quisesse, afinal ele precisaria apenas compreender algumas palavra do idioma para enganar seus alunos. 

Deste modo, o autor faz uma crítica ao falso saber, como no dito popular “as aparências enganam”, no caso quem aparenta saber nem sempre sabe. Castelo conta a Castro como conseguiu aparentar saber javanês, isso se deu por ele ter ido até uma biblioteca e lá pegou uma enciclopédia, letra j, e consultou coisas a respeito da língua javanesa: “A Encyclopédie dava-me indicação de trabalho sobre a tal língua malaia e não tive duvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas palas ruas, perambulando e mastigando as letras.” (BARRETO, 2003, p.10). 

Castelo conta a primeira “Saída feliz” que o javanês lhe deu. Ele fala que encontrou com o encarregado dos alugueis dos cômodos, de um dos quais ele vivia, o homem ao vê-lo pergunta-lhe quando ele iria saldar a conta. Castelo diz que em breve, assim que for nomeado professor de javanês. O homem mostra interesse em saber do que Castelo estava falando e logo deixa de lado o assunto inicial que falava com ele. Depois que o protagonista percebeu o efeito que causou no homem por aparentar saber javanês, procurou o anúncio e resolveu se passar por professor de língua javanesa. 

Cada vez mais o caráter de Castelo é acentuado como um homem sem escrúpulos, afinal ele se propôs ao professorado do idioma, sendo que ele não estava licenciado, e não sabia praticamente nada da língua. Lima Barreto constantemente através da narrativa e do diálogo dos personagens comprova a artificialidade de aparências, acentuando atrás do caráter irônico e cômico do conto que através de falsas aparências, o que importa, nas relações sociais, não é ter, mas o aparentar ter, como no caso de Castelo, seu saber sobre javanês era superficial, vindo de breves pesquisas sobre o javanês e mesmo assim ele conseguiu enganar a todos, obtendo ascensão social. 

Assim, o conto acaba mostrando uma sociedade dupla, contraditória, aparentando ser aquilo que realmente não é, sendo representada por Castelo, ou melhor, pelos seus atos e palavras, pois a linguagem de Castelo também sugere isso. Continuando o relato para seu amigo, Castelo fala que em dois dias recebeu uma carta solicitando um encontro com Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga. Ele ainda fala que aprendeu o nome de alguns autores sobre a língua javanesa, duas ou três regras de gramática e algumas formalidades de apresentação, sendo assim o que ele sabia sobre javanês estava em volta de vinte palavras do léxico. Temos aí mais uma evidência de que o conto é uma crítica ao comportamento hipócrita humano e as artificialidades usadas para obtenção de algo. 

Lima Barreto mais uma vez ataca a hipocrisia das pessoas humoristicamente, pois Castelo afirma a seu amigo que é mais fácil aprender javanês que conseguir o dinheiro que ele precisava para fazer a viagem ao encontro com o Barão. Não tendo conseguido o dinheiro, foi a pé. No primeiro momento de seu encontro com o Barão de Jacuecanga, Castelo diz a Castro que teve vontade de ir embora pela aparência do ancião lhe mostrar algo de sagrado, chegou até a hesitar, mas por fim ficou. Depois das apresentações Castelo conta que o Barão fez-lhe algumas perguntas. Castelo fala que o Barão de Jacuecanga perguntou-lhe onde ele havia aprendido javanês. Ele confessa ao amigo que não estava esperando essa pergunta, mas logo consegui improvisar outra mentira. Mais uma prova do caráter de Castelo, se livrando de ser desmascarado por ser extremamente ardiloso, pois ele se sai perfeitamente bem na entrevista com o Barão, mesmo improvisando respostas na hora. Castro cada vez ficava mais interessado no relato do amigo. É nesta passagem que Lima Barreto começa a definir os traços físicos do personagem principal, como no seguinte trecho: “Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos coloridos, duros e grossos e a minha pele banasé podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...” (BARRETO, 2003, p.11). 

No decorrer da narrativa a questão da artificialidade de aparência fica ainda mais sugerida, pois Castelo afirma que o velho depois de ouvi-lo atentamente e analisar seu físico demoradamente, pareceu realmente acreditar nas suas palavras e o ar de teimosia e precaução do Barão no início da conversa transformou-se em suavidade, “doçura”, perguntando-lhe se ele estava disposto a ensiná-lo javanês. Depois de Castelo ter dado a resposta positivamente, o Barão foi logo dando explicações a Castelo sobre seu interesse em aprender javanês. O Barão de Jacuecanga fala a Castelo que seu desejo de aprender javanês está relacionado ao cumprimento de um juramento de família. Que ele possui um livro escrito em javanês, que seu avô antes de morrer entregou a seu pai dizendo para ele que o livro evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Depois da morte do pai, o Barão conta que fez pouco caso, chegando até a esquecer do livro. Mas há algum tempo vem passando por tantos desgostos e infelicidades que resolveu dar ouvidos ao seu pai e compreender o “talismã da família”. Analisando o Barão de Jacuecanga, podem-se ter duas visões a seu respeito. A primeira é a de um ancião que quer a todo custo cumprir um juramento familiar e é enganado por um vigarista e a segunda visão é a de um homem que quer cumprir o juramento apenas por estar enfrentando dificuldades, assim sendo o interesse que o Barão mostra é artificial, pois ele só quer saber javanês para poder acabar com alguns desgostos que vinha sofrendo e isso parece ser viável, pois ele só veio mostrar interesse no livro depois de velho e por ter passado por contragostos. Castelo fala que desde que pegou no livro para ler mostrou uma boa impressão no idoso e isso se deu pelo fato de as primeiras páginas estarem escritas em inglês. E a sorte de Castelo não para por aí, depois de dois meses o Barão já estava indisposto, talvez pela idade, então decidiu e pediu a Castelo para que traduzisse o livro. Sempre levando tudo comicamente, Castelo fala a Castro que “Até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem toldas e impingias ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!...” (BARRETO, 2003, p18). 

O personagem protagonista em nenhum momento parece ter se arrependido de enganar o Barão, mesmo ele tendo lhe dado moradia, presentes e um bom ordenado. Ou seja, passando da miséria em que se encontrava a uma vida regalada. Cada vez mais Castelo era admirado pelo Barão e por dois familiares seus, a filha e o genro, que não cansavam de elogiar Castelo. Graças ao Barão, ele conseguiu entrar na diplomacia e logo começou a ser reconhecido como o “homem que sabia javanês”, fazendo sucesso por onde passava. A ironia usada no conto chega ao seu ápice crítico no momento em que Castelo, mesmo não sabendo nada mais que algumas informações sobre javanês, é contratado para representar o Brasil em um Congresso de Linguística em Bâle. Como um homem que mal tinha conhecimentos sobre a língua javanesa iria representar o Brasil num “congresso de sábios”. Pouco tempo depois o Barão faleceu, nunca desconfiando das mentiras de Castelo e ainda fazendo-lhe uma deixa no testamento. Castelo conta ao amigo que levando uma boa vida já não tem precisão de estudar as línguas maleo-polinésicas. Enquanto isso, sua fama crescia, em todos os lugares já era reconhecido como o “sujeito que sabia javanês”. Cada vez mais que Castelo eleva sua posição no meio social através de falsas aparências, Lima Barreto usa de ironias, pois chegou o momento em que até gramáticos consultavam o famoso “professor de javanês”. 

O conto “O homem que sabia javanês” é, dessa forma, uma sátira ao comportamento artificial de algumas pessoas que para conseguir o que almejam não se importam em enganar os outros. O conto mostra uma sociedade dupla e contraditória, na qual a ascensão social pode ser alcançada através de falsas aparências, de falso saber e de oportunismo. É a essa sociedade hipócrita que Lima Barreto faz críticas ao longo do conto, demonstrando ser um autêntico crítico social. 

REFERÊNCIAS 

BARRETO, Lima. “O homem que sabia javanês”. In: Contos de hoje e de ontem. Sel. Vania Maria Rezende. 1. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2003, p. 9-23.


Lizandra Souza.

0 Comentários:

Postar um comentário

Obrigada por comentar.

  © Loucuras e Devaneios by Liza

Design by Emporium Digital