Góticos - Vampiros, Múmias, Fantasmas e Outros Astros da Literatura de Terror (RESENHA)

Disponível online para download.
Os Góticos - Vampiros, Múmias, Fantasmas e Outros Astros da Literatura de Terror é uma antologia de contos clássicos da literatura gótica ou gótica-romântica, uma das vertentes mais produtivas do romantismo europeu, organizada pelo escritor Luiz Antonio Aguiar e publicada pela editora Melhoramentos em 2012 (2ª edição).

Nessa coleção temos acesso a oito contos incríveis de alguns dos melhores escritores da literatura universal, entre eles Mary Shelley, Edgar Allan Poe, Bram Stoker e Robert Louis Stevenson, além de 3 poemas e 4 ensaios maravilhosos sobre a literatura de terror, aquela que nos dá calafrios na espinha, que nos assusta diante da quebra do status quo natural e ao mesmo tempo nos fascina ao dialogar com nossos medos e pertubações mais íntimas diante do desconhecido, do sobrenatural, daquilo que não sabemos como explicar pelas leis da normalidade humana.

Algo que me agradou muito foi o fato de que há no final de cada texto um comentário sobre o autor e sua obra, sobre aspectos de sua vida que influenciaram sua escrita assim como alguns elementos de sua composição literária. E no final do livro há um ensaio do organizador da coleção, intitulado "O terror diz até breve" repleto de curiosidades sobre o gênero gótico e um suplemento com algumas questões para aprofundamento, discussão e pesquisa sobre as leituras.

O poema de abertura da antologia é simplesmente maravilhoso, tanto que vou até transcrevê-lo abaixo.

Uma taça feita de um crânio humano 
(Lord Byron)  

Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás - pobre caveira fria -
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
- Taça - levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim pra alguma coisa!...

(Tradução de Castro Alves - em Espumas Flutuantes)

Maravilhoso, não? 

Os outros dois poemas são do alemão J.W. Goethe, escritor símbolo do romantismo alemão e um dos grandes nomes do Romantismo no Ocidente... no final do post, transcreverei os poemas macabros do autor, em um deles vocês até aprenderão que nunca devem roubar a mortalha dos mortos ou...

Calma gente, já falo dos contos, mas antes gostaria de mencionar um episódio recorrente nos comentários pós-obra, o qual é considerado fundamental na história da literatura gótica, que foi uma reunião de escritores-amigos feita na mansão do poeta inglês Lord Byron, às margens do Lado Genebra, na Suíça, no verão de 1816. Eram hospedes de Byron John Willian Polidori, escritor inglês e médico, Mary Shelley e o seu companheiro, o poeta Percy Shelley. Enclausurados em casa, por causa de uma forte chuva, Byron lança um desafio aos seus convidados: "Vamos escrever histórias de fantasmas e lê-las entre nós, para ver quem cria a melhor", para, assim, passarem o tempo. Percy Shelley não escreveu nada, Byron sim, porém sua história ficou incompleta. Sobre Polidori há algumas divergências, entre relatos, há os que dizem que ele concluiu o desafio, porém, não exibiu seu texto naquele dia, um conto intitulado O Vampiro, o qual seu personagem principal, o vampiro Lord Ruthven, influenciou diversos escritores, entre eles Bram Stoker na composição de seu Drácula no final do século XIX. Dessa forma, apenas Mary Shelley, que na época era uma jovem de 21 anos e ainda não havia publicado nenhuma obra, concluiu o desafio de seu anfitrião com êxito, tendo escrito sua história e a exibido, a qual foi nada mais nada menos (rufem os tambores!) seu memorável Frankenstein, um dos romances mais notáveis da literatura gótica do Romantismo e considerado por muitos a obra fundadora do estilo gótico. 

"A princípio, tratava-se de um pequeno conto sobre um jovem estudante suíço que ambicionava criar um ser ideal, injetando vida a um corpo morto. Mais tarde, transformado em romance, tornou-se um marco na literatura do gênero. Frankenstein ou o Moderno Prometeu (Frankenstein; or the Modern Prometheus, no original em inglês), mais conhecido simplesmente por Frankenstein, é um romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico, de autoria de Mary Shelley, escritora britânica nascida em Londres. O romance relata a história de Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais que constrói um monstro em seu laboratório..." - Sinopse no Skoob.
Como a Internet está histérica com os tais dos spoilers, tentarei fazer um comentário rápido e genérico a respeito de cada conto, para assim nenhuma leitora ou leitor me praguejar e eu me deparar com alguma entidade inumana esta noite... pera, mas eu...
Quero!

O livro apresenta os seguintes contos: O vampiro; A pata do macaco; O hóspede de Drácula; Transformação; A queda da casa de Usher; A amante morta; Dickon, o diabo e Janet, a maligna. 

O primeiro conto é o Vampiro, do Polidori. Neste conto conhecemos Lord Ruthven, cidadão londrino, considerado o primeiro vampiro de perfil aristocrático e refinado introduzido na literatura, uma criatura sedutora, misteriosa e fatal. 
"(...) Suas formas e linhas eram belas, a despeito da palidez mórbida de suas faces, que jamais se tingiram de uma coloração mais cálida, fosse o rubor da modéstia, fosse a possessão de uma emoção mais intensa. (...)".

Em seguida temos o conto A Pata do Macaco, um dos melhores contos góticos de todos os tempos, do escritor inglês de contos e romances William Wymark Jacobs. Numa narrativa cuja tensão provocada no leitor é crescente, nós conhecemos a família do senhor White e como esta fica abalada depois de ele comprar uma pata de macaco tida como mágica (ou amaldiçoada...) e pedir um desejo a ela...
"(...) Enquanto os três ficaram sentados à beira do fogo, os dois homens terminaram de fumar seus cachimbos. Lá fora, o vento estava mais forte do que nunca, e o velho começou a ficar nervoso com o som de uma porta batendo no andar de cima./Um silêncio incomum e deprimente se instalou entre eles e durou até o casal se levantar para se recolher. – Espero que encontrem o dinheiro amarrado em um grande saco no meio da cama – disse Herbert, depois de dar boa-noite aos pais – e algo terrível agachado em cima do armário observando vocês enquanto embolsam seus ganhos ilícitos. (...)"

O Hóspede de Drácula, conto de Bram Stoker é considerado o capítulo inicial do romance Drácula, que foi suprimido da obra, possivelmente para fins estéticos de composição de enredo (Stoker nunca se pronunciou sobre...). Essa é uma história de vampiro cujo vampiro só aparece nos implícitos, nas entre linhas ocultas dos acontecimentos, o que já nos coloca num ambiente de questionamento do que é tido como normalidade humana. Jonathan, o "hóspede" de Drácula, vive momentos de terror e tensão num cemitério, no meio de uma forte tempestade onde...
"(...) Um abrigo, mesmo um túmulo, é bem-vindo numa inclemente tempestade, e eu estava prestes a entrar quando o brilho ofuscante de um relâmpago iluminou por inteiro o céu. Naquele instante – e posso jurar isso por minha vida – vi, já que meus olhos estavam fixados na escuridão do túmulo, uma bela mulher, com faces arredondadas e lábios bastante vermelhos, parecendo adormecida sobre um esquife. No que o trovão explodiu, acima da minha cabeça, fui agarrado com tanta força como se fosse pela mão de um gigante e atirado para fora, de volta à tempestade. (...)"

Em Transformação, de Mary Shelley, um homem é levado pelo orgulho e vaidade a trocar de corpo com um anão-demônio, por supostamente três dias e este lhe concederia um baú do tesouro... mas, como nem tudo é o que parece...
" (...) O anão estava sentado em seu baú enquanto ouvia a minha história. Então desceu e pressionou uma mola, e o baú abriu-se! Que fortuna fabulosa – joias fulgurantes, ouro reluzente e a pálida prata – revelou-se em seu interior! Um louco desejo de possuir esse tesouro nasceu dentro de mim. (...)"
A queda da casa de Usher, de Edgar Allan Poe, escritor antológico da literatura norte-americana, é um conto escrito em 1839 e de lá pra cá vem provocando calafrios em seus leitores por causa da descrição da ambientação da residência dos Ushers e do final assombroso da narrativa que, como o próprio título sugere...
" (...) Fugi aterrorizado daquele aposento e daquela mansão. A tempestade ainda assolava o lugar com toda a sua fúria no momento em que eu atravessava o velho passadiço. De repente, surgiu ao longo do caminho uma luz forte, e vireime para ver de onde poderia estar vindo uma luminosidade tão incomum, pois, atrás de mim, somente havia o casarão e suas sombras. A irradiação vinha da lua cheia, de um vermelho sangue, que se punha e agora brilhava fulgurante através daquela rachadura antes mal discernível, da qual falei, e que se estendia do telhado da edificação, em zigue-zague, na direção da base. Enquanto eu olhava, essa rachadura rapidamente alargou-se. Dali veio uma furiosa ventania em redemoinho, e toda a esfera do satélite irrompeu de uma vez diante de minha vista. Meu cérebro vacilou quando vi aquelas maciças paredes cair em pedaços. Houve o som de uma demorada e tumultuada gritaria, como o ruído de mil aguaceiros, e o lago profundo e frígido a meus pés se fechou sombria e silenciosamente sobre os destroços da “Casa de Usher”. (...).

No conto A amante morta, do escritor, poeta, jornalista e crítico literário francês Théophile Gautier, temos mais uma vez a figura do vampiro, mas aqui, diferente dos mencionados anteriormente, temos uma vampira-fêmea, isto é, uma mulher vampira que é justamente a referida no título. A amante morta foi escrito em 1836 e antecede Carmilla (1872) no que se refere a descrição da mulher-vampira. No conto de Gautier conhecemos, através do personagem narrador Romualdo, um jovem padre, a bela cortesã Clamironde, vampira que se envolve com o referido padre e... 
"(...) Toquei levemente seu braço; estava frio, mas não mais frio do que sua mão no dia em que roçara a minha sob o portal da igreja. Retomei minha posição, inclinando meu rosto sobre o dela e deixando chover sobre sua face o rio morno das minhas lágrimas. Ah! Que sentimento amargo de desespero e impotência! Que agonia aquele velório! Queria ter podido resumir minha vida num breve fôlego para oferecer-lhe e soprar sobre seu cadáver gelado a chama que me devorava. A noite avançava. Sentindo aproximar-se o momento da separação eterna, não pude recusar-me essa triste e suprema ternura de depositar um beijo sobre os lábios mortos daquela que havia tido todo o meu amor. (...)"

Dickon, o diabo é um conto de Sheridan Le Fanu, escritor irlandês de contos góticos e romances de mistério. Autor de Carmilla, novela de ficção gótica escrita em 1872, cuja obra traz a considerada por muitos críticos como a primeira vampira feminina lésbica da literatura, Sheridan Le Fanu estruturou o personagem vampiro da literatura, refinou sua composição e por isso é considerado o precursor do magistral Drácula (1897), de Bram Stoker. Em Dickon, o diabo não temos vampiros, mas outros seres que há séculos povoam os temores populares e que até nos dão arrepios na nuca: fantasmas (Uiiiii). 
"(...) Há cerca de trinta anos fui escolhido por duas ricas donzelas, já de idade, para visitar uma propriedade naquela parte de Lancashire próxima à famosa floresta de Pendle, que passou a ser tão agradavelmente familiar a nós por meio de As Bruxas de Lancashire, do Sr. Ainsworth. Meu trabalho era fazer a partilha de uma pequena propriedade, incluindo uma casa e a terra que elas tinham recebido havia muito tempo como coerdeiras. Nos últimos sessenta e poucos quilômetros da minha jornada, fui obrigado a passar repetidamente por encruzilhadas pouco conhecidas e minimamente frequentadas, admirando um cenário extremamente interessante e belo. O pitoresco da paisagem era realçado pela estação – início de setembro – em que eu estava viajando. (...)"

Por fim, temos o conto Janet, a maligna, do escritor britânico Robert Louis Stevenson. Autor de clássicos como A Ilha do Tesouro (1883) (super recomendado para quem gostra de histórias de piratas) e O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1886), novela gótica também conhecida como O Médico e o Monstro,  a qual apresenta um dos personagens mais notáveis da literatura mundial, o Dr. Jekyll e seu outro eu - personalidade, Mr. Hyde, Stevenson nesse conto criou o que se pode chamar com todas as letras de obra-prima. Janet, como o adjetivo "maligna" já nos faz suspeitar, terá no conto uma caracterização sombria cujo comportamento levanta nas pessoas ao seu redor uma série de acusações... 
"(...) Ela não era uma mulher de falar muito. Normalmente as pessoas a deixavam seguir com sua vida, e ela as deixava seguir com a delas, sem nem bom-dia nem boa-noite. Mas, quando ficava irritada, tinha uma língua de deixar surdo o moleiro. Ela começava e não havia nenhuma velha história em Balweary que, naquele dia, não atingisse alguém. Não se podia dizer coisa alguma que ela respondia em dobro. Até que finalmente as donas de casa a pegaram, rasgaram suas roupas e a arrastaram pela vila até as águas do Rio Dule para ver se ela era ou não uma bruxa, se nadava ou se se afogava. A velha gritou tanto que se podia ouvi-la em Hangin’Shaw e lutou como se fosse dez. E muitas donas de casa tinham as marcas no dia seguinte e em muitos outros dias após. E, justamente no momento mais violento da confusão, quem apareceu senão (piedade para seus pecados) o novo ministro? (...)"
Nossa! São 23:55 aqui, preciso terminar esse post, já é quase meia-noite, vocês sabem o que isso significa? Vai que um vampiro resolve me fazer uma visitinha entrando pela janela do meu quarto... 
Tchau, gente, não o posso deixar esperando...

Fiquem com os Poemas Macabros do Goethe, com tradução de Claudia Abeling.

Catalepsia

Chore, menina, aqui, junto ao túmulo do Amor,
por nada, porventura aqui ele acabou por tombar.
Mas estará mesmo morto? Não sei bem dizer.
Um nada, um acaso às vezes lhe traz o despertar.

A dança da morte

Em meio à noite, um guardião se põe a vigiar
os túmulos da sua hospedaria.
A claridade da Lua tudo faz iluminar
e a igreja parece banhada pela luz do dia.
Dos jazigos, um após outro, eles se erguem,
uma mulher e um homem
com suas longas mortalhas brancas.

No estica e puxa, todos só querem diversão,
balançar os ossos em divertida ciranda,
jovem ou pobre, rico ou ancião,
mas as barras atrapalham quem anda.
Como a vergonha é sem cabimento,
requebram-se e, adiante, na direção em que sopra o vento,
as vestes estão largadas no chão.

Então a coxa se levanta, a perna se balança,
de caretas esquisitas há um mundaréu.
Rilhando, rangendo, a tropa avança
e os ossinhos fazem um escarcéu.
Tudo isso é ridículo para o guardião;
até que, em seu ouvido, sussurra a tentação:
Vá, pegue um lençol.

Dito e feito! E ele foge ligeiro
para trás das portas sagradas.
A Lua ainda brilha num luzeiro
e anima as danças desconjuntadas.
Um ou outro, por fim, resolvem dar uma parada
e, vestidos, em fila, batem em retirada.
Logo, vupt, já estão sob o gramado.

Exceto uma ossada, que tropeça e cambaleia,
e nas criptas fica a tocar e se agarrar.
Já sabe que foi vítima de quem não respeitou
a coisa alheia.
Ela fareja, segue o cheiro da mortalha no ar.
Sacode a porta, mas nela encontra resistência.
Linda e abençoada, do guardião a residência
reluz com as cruzes de metal.

Sem descanso, seus trapos ela precisa reaver.
Não há muito tempo para refletir.
Nos ornamentos góticos a criatura está a se prender,
de pináculo a pináculo vai seguir.
Pobre guardião, seu destino está selado!
O estranho avança, acelerado,
tal uma aranha de pernas longas.

Empalidece, leva um susto o guardião,
devolver a mortalha, ah, como ele queria.
Justamente nessa hora – não há mais salvação –
num gancho de metal a ponta prendia.
E logo a Lua não brilha tanto
e o sino bate firme a hora, seu acalanto.
Cá embaixo, o esqueleto se espatifa.

Okay, fiquem também com essa música maravilhosa da banda Bauhaus, feita em homenagem ao Béla Lugosi (1882 -1956), ator húngaro intérprete do filme estadunidense Drácula (1931) no cinema. As cenas do vídeo, no entanto, são  do filme britânico The Hunger (1983), conhecido no Brasil como Fome de Viver, também de temática vampírica. 


† † 

Lizandra Souza.

2 Comentários:

Amanda Souza 18 de julho de 2016 13:48  

Liz, eu simplesmente amo Bram Stoker e Edgar Allan Poe! Tenho o livro "Drácula de Bram Stoker" e "Contos de imaginação e mistério", de Edgar, que inclusive tem esse conto (eu o li recentemente) e sou apaixonada. Adoro livro, filme, série, tudo de terror!
Beijos!

Lizandra Souza 18 de julho de 2016 14:06  

Amo também, estão entre meus escritores favoritos, miga s2

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