O PROGRAMA DE INSTALAÇÃO DA PADARIA ESPIRITUAL: UM ESTATUTO IRREVERENTE E INOVADOAR

Membros da Padaria Espiritual. No centro da Foto, sentado à esquerda da mesa, o poeta Antônio Sales. Do outro lado da Mesa, Waldemiro Cavalcante. Em pé, entre os dois, Rodolfo Teófilo. Á esquerda de Rodolfo Teófilo, o escritor José Nova, e na estrema esquerda, Papi Júnior. (Acervo do M.I.S.). 
A Padaria Espiritual foi uma agremiação literária e/ou artística fundada em Fortaleza, no Ceará, no ano de 1892, composta por escritores, pintores e músicos. Sua principal fonte de veiculação foi o jornal “O pão”, no qual, semanalmente, eram publicadas as produções dos chamados “padeiros”, isto é, dos escritores e/ou artistas, em geral, que faziam parte da Padaria.

Fac-símile do jornal "O Pão" editado pela Padaria Espiritual.
Os "padeiros" assinavam seus textos com pseudônimos, o que geralmente causava espanto ou admiração das pessoas, pois muitos dos pseudônimos remetiam a elementos nacionais e/ou regionais, populares, ou, ainda, eram neologismos, o que foi uma forma de criticar o academicismo presente nas associações literárias de até então, assim Antônio Sales, considerado o idealizador da Padaria Espiritual, foi Moacir Jurema, Adolfo Caminha foi Félix Guanabarino, Jovino Guedes foi Venceslau Tupiniquim, Lívio Barreto foi Lucas Bizarro, entre outros “rapazes de letras e artes”, isto é, integrantes da Padaria Espiritual que adotaram pseudônimos considerados ousados, naquele contexto. Um dos principais objetivos do grupo era promover o gosto pela literatura na sociedade, isto é, estabelecer uma sociedade literária (renovada, original) em seu tempo, considerando a apatia literária da sociedade cearense da época.


O escritor Antônio Sales, ao redigir o Programa de Instalação da Padaria Espiritual, espécie de estatuto, composto de 48 itens, acerca das premissas e propostas da padaria, foi responsável pela construção de uma estrutura para ''legitimar'' o movimento. O estatuto foi lido pela primeira vez na inauguração da agremiação literária, no dia 30 de maio de 1892, no Café Java, na Praça do Ferreira, em Fortaleza. “O dito Programa de Instalação da Padaria Espiritual apresenta aspectos irreverentes, que se voltam contra algumas práticas comuns em sua época, especialmente, no campo das letras” (RODRIGUES, 2013, p. 164).

Café Java
A seguir, alguns itens dos 48 artigos do programa de Instalação da Padaria Espiritual, publicado pela Tipografia d’O Operário, em 1892, os quais sintetizam as principais premissas e/ou propostas desse movimento literário/artístico cearense.

“I – Fica organizada, nesta cidade de Fortaleza, capital da "Terra da Luz", antigo Siará Grande, uma sociedade de rapazes de Letras e Artes, denominada – Padaria Espiritual, cujo fim é fornecer pão de espírito aos sócios em particular, e aos povos, em geral.” (O OPERÁRIO, 1892 apud RODRIGUES, 2013, p. 165).


Com o primeiro item, fica evidenciado que a composição da padaria não era feita só por escritores, “rapazes das letras”, mas também das artes e que a principal finalidade era fornecer “o pão do espirito”, isto é, a literatura, a arte, seu contato e sua fruição, não só aos integrantes do movimento, mas a população em geral.

II – A Padaria Espiritual se comporá de um Padeiro-mór (presidente), de dois Forneiros (secretários), de um Gaveta (thesoureiro), de um Guarda-livros na accepção intrinseca da palavra (bibliothecario), de um Investigador das Cousas e das Gentes, que se chamará – Olho da Providencia, e demais Amassadores (sócios). Todos os sócios terão a denominação geral de Padeiros. (O OPERÁRIO, 1892 apud RODRIGUES, 2013, p. 165).

Ao tratar, de forma irreverente, da organização hierárquica da agremiação, esse item justifica, através da denominação dos integrantes, como por exemplo, o Padeiro-Mor e o Forneiro, o estabelecimento em que se inspiraram para o nome do movimento: uma padaria.

“XIV – É prohibido o uso de palavras estranhas à lingua vernácula, sendo, porem permittido o emprego dos neologismos do Dr. Castro Lopes.” (O OPERÁRIO, 1892 apud RODRIGUES, 2013, p. 171).

A proibição das “palavras estranhas à língua vernácula” revela um projeto nacionalista de negação ao pensamento do colonizador a medida que procurava-se valorizar e potencializar a identidade nacional a partir dos elementos da própria terra. Tal preocupação e negação ao “estrangeiro” (sobretudo ao europeu), em busa da valorização do nacional, se confirmam em outro artigo, segundo o qual “XXI – Será julgada indigna de publicidade qualquer peça litteraria em que se fallar de animaes ou plantas extranhas á Fauna e á Flora Brazileira, como – cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho etc.” (O OPERÁRIO, 1892 apud RODRIGUES, 2013, p. 174-175).

Irreverência, inovação e humor são, diante desse quadro, características presentes no estatuto ou programa de instalação da padaria composta por esses jovens “de letras e artes” que modificaram a forma como a literatura era vivenciada, pela sociedade cearense, na transição do século XIX ao século XX. 

Cartão colorizado do início do Século XX da Avenida 7 de Setembro

REFERÊNCIAS

RODRIGUES, Iris Dayane Lopes. Programa de instalação da padaria espiritual: irreverência e humor. Essentia: Sobral, vol. 14, n° 2, p. 161-187, dez. 2012/maio 2013.
Estatutos da Padaria Espiritual. In: http://www.jornaldepoesia.jor.br/espi.html.
Padaria Espiritual. In: http://www.ceara.com.br/cepg/h41.htm.
Acervo MIS. Disponível em: http://www.mis-sp.org.br/acervo. 


Lizandra Souza.

2 Comentários:

Miguel Leocádio Araújo 23 de junho de 2016 13:19  

Oi, Lizandra. que bacana sua crônica sobre a Padaria Espiritual, agremiação única no Brasil. Os livros publicados pelos padeiros foram muitos, inclusive houve uma série de livros publicados sob a rubrica de "Biblioteca da Padaria Espiritual". Esse livros ainda merecem estudos mais demorados, porque os escritos dos padeiros nesse programa de instalação e nas páginas no jornal O Pão parecem chamar mais a atenção dos pesquisadores (pelo menos até onde eu sei). O pesquisador Sânzio de Azevedo publicou um outro livro sobre a Padaria (entre os outros que ele escreveu sobre o assunto). Deixo o link para uma resenha sobre esse livro: http://paginasefolhas.blogspot.com.br/2012/02/breve-historia-da-padaria-espiritual-de.html

Lizandra Souza 24 de junho de 2016 13:35  

Oi, Miguel, obrigada pelo comentário. Interessante, eu já vi um livro desses sobre a PE do Sânzio na biblioteca da faculd., vou conferir a resenha.

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