Olhares sobre Vinicius de Moraes: resenha do documentário “Vinicius” de Miguel Faria Jr.




A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris (VINICIUS, 2005).


É com a declamação deste trecho - pelo ator Ricardo Blat - retirado da crônica “Recado de primavera”, do escritor Rubem Braga, dedicada a Vinicius de Moraes - que se inicia o documentário “Vinicius” (2005), de Miguel Faria Jr., já revelando indícios do caráter criativo do filme sobre a vida, e consequentemente, a obra, a família, os amores e os amigos de um dos maiores poetas e compositores brasileiros, que também foi diplomata, dramaturgo e jornalista.

Em formato de um pocket show, o documentário é repleto de declamações de poesias/poemas de Vinicius por Ricardo Blat e Camila Morgado; de músicas/composições suas - interpretadas por uma variedade de nomes importantes da música popular brasileira, e, de comentários/entrevistas/depoimentos feitos pela família, amigos e/ou admiradores do poeta, os quais são grandes personalidades brasileiras, tais como, Antônio Candido, Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Ferreira Gullar, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Toquinho, entre outros.

Diante desse formato dinâmico, entre declamações de poemas, interpretações de músicas e de depoimentos emocionantes de familiares e amigos de Vinicius é que a vida do poetinha é apresentada. Marcus Vinicius de Mello Moraes nasceu em 19 de outubro de 1913, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, lugar em que passou muito tempo de sua vida e que lhe concedeu diversas inspirações para sua poesia, entre elas a famosa “Garota de Ipanema” (1962), composição sua e de Tom Jobim, e, também, onde possui uma rua com seu nome, a placa da rua referida no trecho da crônica de Braga. Vinicius morreu aos 67 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro, no dia 09 de julho de 1980.

Vinicius teve uma infância livre e, ao mesmo tempo, uma formação rigorosa. Era o segundo dos quatro filhos, de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta amador, doutor em Latim e professor de violino, piano e francês, e Lídia Cruz, pianista amadora, vinda de uma família de boêmios, deste modo, ele nasceu em uma família que proporcionou seus primeiros contatos com a arte, poesia e música desde sua infância. Como sua família era de classe média, ele foi o único dos quatro filhos que teve as melhores oportunidades de estudo, tendo uma rigorosa formação acadêmica, onde estudava a elite carioca daquele tempo.

Vinicius de Moraes, além de ser testemunha/personagem das transformações da paisagem sociocultural da sociedade de seu tempo, daquele Rio de Janeiro influenciado pela cultura francesa, principalmente pela Belle Époque, trouxe para a cena cultural e artística desse contexto diversas inovações, entre elas a peça teatral “Orfeu da Conceição” (1956), baseada no drama mitológico grego da história de amor de Orfeu e Eurídice, que apesar do final trágico dos personagens, a história é uma celebração da vida, do amor, da arte. A obra é inovadora, pois mescla a cultura erudita com a popular, adaptando em forma de peça musical o mito grego de Orfeu para à realidade das favelas cariocas.

A obra poética de Vinicius passou por duas fases principais. A primeira é influenciada pelo misticismo e profundamente cristã, pela sua criação e formação católica em um famoso colégio de padres jesuítas (o Santo Inácio). E a segunda fase, com características modernistas, da coloquialidade da expressão/linguagem, da busca do simples (que tornar-se sublime) do cotidiano, da busca do amor, da paixão, e também, com temáticas de cunho social, como por exemplo, apresentando temas que envolvem/valorizam a cultura negra, sendo, por isso, tido como “branco mais preto do Brasil”.

Segundo o depoimento de Antônio Candido, Vinicius é um poeta que está inserido na tradição poética clássica, pelas formas poéticas tradicionais (sonetos, odes), porém, ao mesmo tempo, é o poeta que mais se aproximou das características modernistas pela poesia da vida cotidiana, da naturalidade da linguagem, do prosaico.

O documentário não se restringe somente à vida artística do poeta, mas também aborda as aventuras de sua vida pessoal, marcada pela sua afetividade intensa, pelo amor a vida e ao próprio ato de amar, pois o poetinha teve muitas paixões. Ele casou-se nove vezes e teve cinco filhos. Suas esposas foram, respectivamente, Beatriz Azevedo, Regina Pederneira, Lila Bôscoli, Maria Lúcia Proença, Nellita de Abreu, Cristina Gurjão, Gesse Gessy, Marta Rodrigues e a última Gilda Matoso. O filme também mostra que o poeta possuiu amizades intensas e duradouras. E tudo isso é apresentado através de depoimentos e arquivos dos familiares e amigos de Vinicius.

Segundo Toquinho - uma de suas parcerias mais proveitosas na composição de grandes músicas - Vinicius era um homem que vivia e fazia poesia para buscar o amor, a paixão eterna, e isto, podemos ver em alguns dos seus versos do “Soneto de fidelidade”, uma de suas obras mais conhecidas: “Que não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure.”.

Vinicius foi, junto com João Gilberto, Tom Jobim, um dos precursores principais da bossa nova. A música “Garota de Ipanema”, composta por Vinicius e Jobim, é um dos clássicos da bossa nova, possui uma grande repercussão nacional e internacional, sendo uma das músicas mais tocadas no mundo.

O documentário, desta forma, através de seus vários recursos (declamações de poemas, entrevistas, comentários, interpretações musicais) aborda vida e a obra artística de Vinicius de Moraes, homenageando, assim, um dos poetas consagrados da literatura brasileira.


REFERÊNCIAS

VINICIUS. Direção: Miguel Faria Jr. Coprodução: Globo Filmes, 1001 Filmes. [S.l.]: UIP, 2005, 1 DVD.





Lizandra Souza.

3 Comentários:

mipaulourenco 30 de janeiro de 2016 14:16  

Adorei este documentário sobre a vida do Poeta da minha (vida!) Vinicius é único, irrepetível.

Anônimo,  21 de agosto de 2016 16:07  

mas não superou Carlos mito Drummond

Anônimo,  21 de agosto de 2016 16:09  

mas não superou Carlos mito Drummond

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