Salada Literária: Clarice Lispector



Clarice Lispector (nascida Haia Pinkhasovna Lispector, passando pouco tempo depois a se chamar Clarice).
Nascimento: 10 de dezembro de 1920, Tchetchelnik - Ucrâ­nia.
Falecimento: 09 de dezembro de 1977 (56 anos) Rio de Janeiro, RJ.
Nacionalidade: Brasileira (naturalizada)
Ocupação: Escritora, romancista, contista, cronista, tradutora, colunista e jornalista.

Nesta terça (10), Clarice Lispector, uma das escritoras brasileiras mais renomadas, completaria 93 anos de vida. Autora de obras-primas de nossa literatura, como A Paixão Segundo G.H. (1964) e A Hora da Estrela (1977), Clarice nos deixou uma vasta obra literária, refinada e de bom gosto.



Vamos preparar a salada?!


INGREDIENTES

1 livro
1 escultora
1 "terceira perna"
1 colher de rotina
1/2 xícara (chá) de inquietação 
8 colheres de sopa de existencialismo
1 tablete de introspecção
1 apartamento no Rio de Janeiro
1 pequeno quarto de empregada
1 barata
1 armário
3 colheres de sopa de crise existencial
1 colher de sopa de revelação
4 xícaras (chá) de críticas/reflexões a condição humana

MODO DE PREPARO

Abra o livro e leia todos os ingredientes com calma, não passe somente os olhos pelas palavras, mas utilize também seu coração, sinta cada reflexão sobre a condição humana como se fosse destinada especialmente a você, procure concentrar sua atenção nas revelações e por fim segure na mão de G.H. e seja esse alguém que ela procura para dar a experiência que viveu...


E a salada... livro é: A Paixão Segundo G.H. 


Sinopse:

A escultora G.H. nos conta sua experiência vivenciada a partir do instante em que entra no quarto da ex-empregada, vê o surgimento de uma barata no guarda-roupa e a esmaga na porta. Daí em diante, tomada por uma mistura de medo e repulsa, G.H. vive com a barata durante horas e horas a sensação de ter perdido a sua "montagem humana". A incapacidade de dar forma ao que lhe aconteceu, a aceitar este estado de perda, a leva a imaginar que alguém está segurando a sua mão. Desta maneira, o leitor passa a viver junto com a personagem esta experiência singular.
Romance original, desprovido das características próprias do gênero, A paixão segundo G.H. conta, através de um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora.






Algumas Pinturas de Clarice Lispector


Medo - 1975



Explosão - 1975



Pássaro da Liberdade - 1975 - óleo sobre madeira 





******

O poema abaixo foi escrito por Carlos Drummond de Andrade





Visão de Clarice Lispector

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.

******




Um Caso Singular

Nunca consegui entender minha reação após meu primeiro contato com a obra de Clarice Lispector. Tinha eu uns 9 ou 10 anos quando encontrei na biblioteca da minha escola de ensino fundamental um exemplar da coletânea de contos A Vida Íntima de Laura, da editora... Acho que era a Rocco...

Ah, como me encantou aquela capa com aquelas galinhas ciscando farelos no chão... Na época eu tinha uma galinha de estimação, a Rosinha, ou Odinha para os íntimos... Era uma galinha rosa... Na verdade descobri mais tarde que era um galo que veio pintado de rosa (ainda um pinto), mas essa é outra história... Aquela capa me atraiu de vez para ler o livro... Não me julgue, eu era uma criança, crianças julgam o livro pela capa... Quem nunca?

Outro fator era o nome da escritora, Clarice Lispector, Clarice Lispector... Clarice Lispector... Eu repeti esse nome algumas vezes, pois achei o nome mais lindo que já tinha conhecido... Resolvi pegar o livro para ler em casa. Li o livro em algumas semanas... Duas quem sabe? Adorei a história, eu adorava galinhas, então isso para mim fazia todo sentido... Ah, como foi fascinante diante de meus olhos a história da vida íntima de Laura, uma galinha, que vivia no quintal de Dona Luísa na companhia de outras aves... Laura uma galinha simples, casada com um galo chamado Luis.

Laura uma galinha como a minha, tendo seu cotidiano narrado tão sutilmente para mim... Eu nem sabia o que era narrar na época... Era Clarice quem me contava a história.


Espero que tenham gostado desta Salada Literária, dedicada a Clarice Lispector, uma das maiores escritoras brasileiras, minha preferida S2... tão que já chorei hoje, problema seu se não quiser acreditar rsrsrs!!!



Lizandra Souza

3 Comentários:

Lisiani Rodrigues 10 de dezembro de 2013 13:23  

Clarice nos ganha pela forma que mostra como estamos perdidos! Bela homenagem, texto bem escrito! Parabéns, moça! Lisiani Rodrigues (Lisi, assim como Odinha)

Alice Aguiar 10 de dezembro de 2013 13:25  

cara eu já li alguns textos dela.
mas nunca tive a oportunidade de ler um livro sabe
Seguindo o Coelho Branco

Lola Mantovani 15 de dezembro de 2013 11:37  

Amo a Clarice, esse ano pude apresentar dois trabalhos sobre ela (pense na felicidade da pessoa), amo tudo queela escreve e me identifico bastante, sempre digo que o livro Água Viva foi escrito pra mim.
beijos

Postar um comentário

Obrigada por comentar.

  © Loucuras e Devaneios by Liza

Design by Emporium Digital