As Galinhas De Clarice Lispector




Hoje vamos falar um pouquinho sobre as galinhas de Clarice.

Galinhas da Clarice?
Calma! Eu explico!

Resolvi fazer uma resenha de dois contos da Clarice Lispector que gosto muito, que são "Uma galinha" e "A vida íntima de Laura". Neles, galinhas são as personagens principais, em que no primeiro conto uma galinha pode figurar/simbolizar o papel que é destinado a mulher na sociedade e no segundo uma galinha tem uma vida e conflitos existenciais também de uma mulher (''papel'' no casamento, filhos, vaidade, defeitos, qualidades...). Nisso tudo, achei muito interessante o papel "humanizado" das galinhas nesses contos, pois como - supostamente - vocês verão, elas não são apenas seres destinados a serem comidos.


Uma Galinha




Nesse conto, uma galinha “pertencente” a uma família, de aparência tradicional, num domingo, para evitar ser o almoço, faz uma experiência de fuga pelos telhados da casa, sendo perseguida pelo “dono da casa”, o homem, chefe da família, que a carregou com certa brutalidade para seguir seu destino de “galinha”: “Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência” (LISPECTOR, 1998, p. 21). Logo em seguida, a galinha inesperadamente passa a ser a “rainha da casa”, um “Ser” diferente do que era - ao pôr um ovo.

É como se a Galinha deixasse de ser algo indiferente para aquela família, na medida em que ela “agora” tem algo a oferecer – o ovo. Antes, era apenas uma “galinha de domingo”, caracterizada assim, pelo narrador, e depois, como numa metamorfose, a galinha mudou momentaneamente sua identidade para aquelas pessoas. Passam-se os dias e a galinha meio que se transforma num membro da família: “Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: “E dizer que a obriguei a correr naquele estado!”. A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam" (LISPECTOR, 1998, p. 21).

Assim, a galinha, passou a ser humanizada pela família, ganhou até uma “vida” e nem estava consciente disso. A partir de certos momentos me pergunto, até onde vai essa humanização? Até em que ponto é atribuído características humanas a essa galinha? E de que ser humano estou falando? Da mulher! Sim, falo que a galinha do conto, possivelmente pode estar relacionada a representar figurativamente a condição feminina, afinal, durante o conto, características da mulher são atribuídas à galinha, num plano figurativo, a questão da submissão e da valoração, “Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista.” (LISPECTOR, 1998, p. 20). Por que um galo (''sexo masculino'') teria mais vantagens? Isso remete a subordinação da mulher ao homem, o que ocorre em sociedades de base patriarcal.

Por outro lado, temos também a revolta e o inconformismo da galinha - podendo representar os movimentos feministas - diante de situações que são impostas ao seu “destino”, pois ela tenta fugir de seu destino, e mesmo depois de ser pega, ainda tinha dentro de si “... uma pequena coragem, resquícios da grande fuga.”. A galinha pode simbolizar uma mulher na medida em que o narrador lhe deu atributos femininos como, por exemplo, ''deu á luz'', ''filho'' e ''maternidade'' diante do ato de pô um ovo - prematuro -, que, aliás, a livrou de ser o almoço.

Vivemos numa sociedade machista, e isso não é de hoje, mas de um longo período histórico da nossa cultura patriarcalista, que impõe um papel servidor e passivo para  a mulher. Em pleno século XXI (sim, uso esse clichê para dar um 'q' de choque) ainda existem pessoas que pensam erroneamente que “mulher é nasceu pra casar e ter filhos” ou que “mulher para se afirmar mulher (e para ter ''valor'') precisa ter filhos, formar família”... Como a galinha do conto que passou a ser “a rainha da casa” somente depois que procriou (essa questão da mulher como o ser somente de relevância quando procria é tão clara, que o homem depois que a galinha bota o ovo, se arrepende de ter a perseguido “naquele estado”, ou seja, se ela não estivesse “grávida”, ela não teria a mesma importância e ele não teria que ter cuidado). 

Assim é a galinha da história, apenas um ser servidor a uma família (visão que muitos têm da mulher, dona de casa), que depois de ter oferecido seu ovo e de ter servido passivamente de “distração” é descartada: “Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.” (LISPECTOR, 1998, p. 20).


A Vida Íntima de Laura




Nesse conto é narrada à história da vida íntima de Laura. E quem é Laura? Pois bem, Laura é uma galinha que vive no quintal de Dona Luísa na companhia de outras aves, caracterizada pelo narrador inicialmente como uma galinha “muito das simples”, casada com um galo, chamado Luís, que às vezes brigam, mas briguinhas á toa. Laura também é simpática e meio burrinha. E tem o pescoço, “mais feio do mundo”.

Não que isso tirasse o valor de Laura, pois o que importa é “ser bonito por dentro”. Laura também tinha suas qualidades, botava ovos, como nenhuma outra galinha na vizinhança. E isso a tornava especial, passando a mensagem de que mesmo com - supostos - ''defeitos'' (físicos – pescoço feio – ou psicológicos – meio burrinha; todos têm suas qualidades – botar ovos com excelência).

O interessante é que por mais que Laura seja uma galinha, ela assim como na galinha do conto anterior, também recebe predicados humanos (a galinha é casada, tem filho – nessa denominação, é simpática, vaidosa, burrinha, tem até “pensamentozinhos e sentimentozinhos” e amiguinhas...). Mas o que isso pode simbolizar? Sabemos que galinhas não se casam... Mulheres é que, no sentido genérico (errôneo) se casam (e obviamente têm filhos, no sentido de “dar à luz”). 

Você poderá dizer, e com razão, que é um conto infantil e que isso (humanização da galinha) é um atrativo que a autora utiliza para deixar o conto interessante e divertido. Sim, por isso também, mas levei na interpretação em conta a minha loucura, digo, outros textos que li sobre o assunto,  além das conotações que o conto me passou, sendo intencionalmente (ou não) feitas pela autora.

Em determinado momento, na história de Laura, é aludida à possibilidade de ela virar o jantar, galinha ao molho pardo, sugerida por uma cozinheira... “Essa galinha já não está botando muito ovo e está ficando velha. Antes que pegue alguma doença ou morra de velhice a gente bem que podia fazer ela ao molho pardo.” (LISPECTOR, p.13). Com isso, vemos que Laura tinha seu valor (para os humanos), na medida em que tinha algo para oferecer (os ovos) e que a partir do momento em que deixava de ser tão boa produtiva era deixada de lado, assim como a galinha do conto anterior. Ao contrário do que ela era para as outras aves, que eram suas amigas e sabiam viver com as diferenças e respeitá-las... Outro fato interessante é que Laura ao pensar que poderia virar o jantar, e mesmo morrendo de vontade de não morrer, gostaria ao menos que fosse comida por Pelé... Como se isso lhe dignificasse. Burrinha ela? (Sim!).

Que galinhas mais peculiares, não?

Há também outras obras que conheço da autora que têm galinhas como ''personagens'', como o conto “O Ovo e a Galinha”, conto que trata de uma problemática existencial (conto que me deixou mais louca!) e também “Uma história de Tanto Amor” que apesar de galinhas não serem as personagens principais, são bastante estimadas por sua ingênua dona...

Enfim, já falamos muito de galinhas, que tal falar de peixes? Vocês Sabem da mulher que matou os peixes?

Leia também: A Vingança da Galinha! 


Obs.: "As Galinhas de Clarice Lispector" é o título da minha resenha, não de um livro da autora.


Referência

LISPECTOR, Clarice. "Uma galinha". In: Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. ''A vida íntima de Laura''. In: A vida íntima de Laura e outros contos. Rio de Janeiro: JPA, 2011.



Lizandra Souza.

5 Comentários:

Universo dos Leitores 16 de setembro de 2013 13:13  

Clarice Lispector é delicadeza pura, não tem como não amar!

Abraços, Isabela.

Anônimo,  17 de setembro de 2013 16:53  

post muito bom, parabéns!

António Jesus Batalha 20 de setembro de 2013 07:43  

Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho,
Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
decerto que virei aqui mais vezes.
Sou António Batalha.
Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar
siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

Lola Mantovani 21 de setembro de 2013 08:26  

Ultimamente tenho me apaixonado mais ainda pelos escritos da Clarice, vou procurar esse livro ;)
beijos

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