Resenha do livro Clara dos Anjos de Lima Barreto




SINOPSE

"Em Clara dos Anjos relata-se a estória de uma pobre mulata, filha de um carteiro de subúrbio, que apesar das cautelas excessivas da família, é iludida, seduzida e, como tantas outras, desprezada, enfim, por um rapaz de condição social menos humilde do que a sua. 
É uma estória onde se tenta pintar em cores ásperas o drama de tantas outras raparigas da mesma cor e do mesmo ambiente. O romancista procurou fazer de sua personagem uma figura apagada, de natureza "amorfa e pastosa", como se nela quisesse resumir a fatalidade que persegue tantas criaturas de sua casta: "A priori", diz, "estão condenadas, e tudo e todos parecem condenar os seus esforços e os dos seus para elevar a sua condição moral e social."
É claro que os traços singulares, capazes de formar um verdadeiro "caráter" romanesco, dando-lhe relevo próprio e nitidez hão de esbater-se aqui para melhor se ajustarem à regra genérica. E Clara dos Anjos torna-se, assim, menos uma personagem do que um argumento vivo e um elemento para a denúncia.”.

Referência da sinopse: Editora Ática. (Não é a editora da capa de ilustração!).

Denúncia ao preconceito racial e a discriminação social

O autor representa, na figura de Clara e no seu drama, a condição social da mulher, pobre e negra, “mulheres de cor”, daquele tempo. O preconceito racial por causa da cor, raça, a discriminação por ser pobre e o determinismo com que essas mulheres eram vistas: toda mulher pobre e de cor estava determinada a ser seduzida, corrompida e abandonada.

É por isso que a mãe de Clara tinha uma superproteção para com a filha, porque ela sabia o conceito genérico que elas sofriam. Clara ao mesmo tempo em que representa as mulheres pobres e negras, acaba representando também um pouco a identidade social dos homens pobres e negros em geral, que também eram muito discriminados na época. Como no caso do próprio autor do livro, Lima Barreto, que assim como Clara, era pobre e negro, e também sofreu discriminação por ser filho de uma negra.

Através da história das personagens é pintado um painel de críticas a essa sociedade racista, hipócrita, preconceituosa e excludente. Críticas a essa cultura estabelecida de determinar as raças, de lhes impor um destino já traçado, de que toda mulher pobre, “de cor”, seria seduzida e abandonada. Críticas à manutenção desse preconceito social e racial que fazia parte da cultura "daquele tempo''.

''Sem salvação'', arrastada por esse status quo - social, por sua manutenção, Clara, ironicamente dos Anjos, representa de certa forma uma parcela da nação brasileira, discriminada, corrompida, traída e abandonada.

A questão do poder em relação às classes sociais: o papel da influência, do favor e da indicação também é trabalhado na obra. Em geral, todas as mulheres que o Cassi (homem que ilude e abandona Clara) desonrava eram pobres, de humilde condição. Sem nenhum peso na sociedade. Então quando ele era denunciado não acontecia nada, porque a família dele tinha um pouco mais de condição que a das vítimas, porque seu pai tinha certa influência e/ou sua mãe tinha algum conhecido importante.

“(...) Em geral, as moças que ele desonrava eram de humilde condição e de todas as cores. Não escolhia. A questão é que não houvesse ninguém, na parentela delas, capaz de vencer a influência do pai, mediante solicitações maternas (...).”. (BARRETO, p.21).

As Artificialidades de aparências da sociedade são tratadas com sarcasmo e críticas. Ao explicar a origem do sobrenome Jones, o narrador ironiza o desejo de muitos brasileiros de se distinguirem por uma suposta origem estrangeira.

“(...) Cassi Jones de Azevedo era filho de Legítimo de Manuel Borges de Azevedo e Salustiana Baeta de Azevedo. O Jones é que ninguém sabia onde ele o fora buscar, mas usava-o, desde os vinte e um anos, talvez, conforme explicavam alguns, por achar bonito o apelido inglês... A mãe, nas suas crises de vaidade, dizia-se descendente de um fantástico Lorde Jones, que fora cônsul da Inglaterra, em Santa Catarina; e o filho julgou de bom gosto britanizar a firma com o nome do seu problemático e fidalgo avô. (...)”. (BARRETO, p.20).

Já que Lima Barreto é considerado um forte crítico da sociedade de seu tempo, ele não poderia deixar de mencionar em sua obra o descompromisso do governo em relação às camadas pobres da sociedade. Negligência política em relação às camadas socialmente baixas. Que só são lembradas quando é para pagar impostos. Assim, o autor também faz uma crítica às estruturas culturais e econômicas.

“(...) Por esse intricado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro. (...) Mais ou menos é assim o subúrbio, na sua pobreza e no abandono em que os poderes públicos o deixam. (...)”. (BARRETO, p.74-75).

Clara dos Anjos é um romance intrigante e envolvente que nos ajuda a conhecer um pouco do cenário sócio-cultural do Brasil daquela época, sobretudo dos subúrbios cariocas onde configura-se o espaço central da narrativa.


Lizandra Souza

6 Comentários:

Lola Mantovani 16 de julho de 2013 14:34  

Adorei a resenha, eu coloquei esse livor na minha lista de livros nacionais a ler, acho que é praticamente uma leitura obrigatória
beijos

Anônimo,  25 de setembro de 2013 10:26  

É interessante, pois quando comecei ler o livro não achei que gostaria tanto da história, é de leitura rebuscada mas adorei!

Anônimo,  30 de novembro de 2013 14:19  

adorei ler o livro Clara dos Anjos pois através dele mostra o preconceito bem antes como se as pessoas negras não fosse gente normal fosse bichos cada pessoa tem o seu valor

Unknown 19 de maio de 2016 07:34  

Amei o Livro, Muito bom <3

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